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Boa tarde - Itabira, domingo, 15 de setembro de 2019   NOTÍCIA SECA CONTATO

DOCUMENTÁRIO  
Capítulo 16º: ILUSÕES E SONHOS IRREALIZADOS
Pelotização: mais uma síndrome itabirana no caminho 15/01/2019

 
Vimos no último capítulo o sonho itabirano do projeto moveleiro nascer, crescer e virar éter. Muita conversa, muita promessa e resultado final resumido em frustração. Teve viagem de superintendente e de agente de desenvolvimento  à África e à Europa,  inauguração de uma pequena fábrica para engambelar os distraídos e ponto final. A esperança seria a Medium Density Fibreboard (M.D.F.), qualidade de alto estilo, mas deu no que deu: nada. A Florestas Rio Doce, subsidiária da Companhia Vale do Rio Doce, chegou a colocar em funcionamento uma fabriqueta no Bairro Campestre, nas proximidades das instalações de minério de ferro, empregou pouco mais de meia dúzia de funcionários e deixou o tempo diluir as expectativas.
 
Agora chega a vez da abordagem da Pelotização, um outro sonho prometido e que teve muitos capítulos se desenrolando. Pelotização é um processo aplicado para aglutinar as partículas do minério de ferro. A aglutinação de partículas ou transformação em pelotas facilita as operações metalúrgicas posteriores. Em outras palavras, faz-se a compressão ou moldagem de um dado material na forma “pellet”. Uma grande variedade de materiais diferentes podem passar por tal processo, incluindo produtos químicos, ração animal composta, dentre outros. No caso da Vale é mesmo o minério de ferro. 
 
A pelotização em partículas ultrafinas ocorre por meio de tratamento térmico. Esta fração ultrafina de minério de ferro  (abaixo de 0,15 mm) é encontrada desta forma na natureza ou gerada no beneficiamento. A pelotização tem como produto aglomerados esféricos de tamanhos na faixa de 8 a 18 mm, com características apropriadas para alimentação das unidades de redução, tais como altos-fornos.
 
Nos altos-fornos, resumidamente, ocorre fusão e redução do ferro, que passa da forma de óxido à forma metálica. Neste tipo de equipamento, toda a carga de óxido de ferro é adicionada anteriormente ao acendimento do forno. No carregamento do forno faz-se uma pilha de material no interior do mesmo, chegando a alturas de 30 metros em alguns casos. Devido a essas características do processo, são necessárias ao material alimentado algumas propriedades.
 
FALA RICARDO DEQUECH
 
Até setembro de 1994 a Vale mantinha sete usinas de pelotização no Porto de Tubarão (ES) e, mais tarde, colocou em funcionamento outra em Itabirito (MG), em sociedade com a Ferteco. Naquele mês de setembro, como repórter, entrevistei o superintendente Ricardo Dequech, no escritório do Areão. Ele não poupou otimismo, quase certezas e promessas durante o encontro. Para começo de conversa, sua entrevista recebeu o título de “A Vale nunca sairá de Itabira”. Suas palavras gravadas e publicadas na edição daquele mês, de Itabira e Centro-Leste em Revista.. No subtítulo, além de afirmar que a empresa estudava as possibilidades de implantação de uma usina em Itabira, declarou ainda, de bom tom, que o umbigo da Vale está enterrado aqui. (Itabira e Centro-Leste em Revista, setembro de 1994, páginas 6 a 10).
 
Interessante na entrevista é a referência feita pelo engenheiro de minas sobre o minério itabirito que, naquele tempo, era considerado rejeito e colocado em pilhas descartáveis. “Houve uma mudança  muito significativa no mercado externo com relação à aceitação do minério pobre, o itabirito”, afirmou Dequech. Tal concepção somente agora, quase nos anos 20 do século 21, a Vale resolveu, não partir para a pelotização, mas, sim, um processo de concentração para elevar o teor do citado minério pobre.
Esclarecendo a necessidade que o mercado demandava, que era o “pellet”, ele afirmou que a fase de exigência do mercado era favorável à construção de usinas porque  as instalações do Cauê e de Conceição, consideradas as maiores e melhores do mundo estavam disponíveis e esse seria o próximo passo da mineradora.
 
Uma pergunta que era interrogação nos quatro cantos da cidade foi feita a ele: “Por que a Vale construiu tantas usinas de pelotização fora de Itabira e nunca em Itabira?” Vejam a sua resposta: “As construídas pela Vale no Porto de Tubarão obedeciam estrategicamente a uma necessidade da empresa. Elas recebem minérios de várias minas e a produção é voltada para o mercado externo. Agora, a Vale estuda a possibilidade de fabricar pelotas para o mercado interno e, neste caso, as usinas deverão ser construídas em Itabira”.
 
UM ANO DE ESPERA
 
Os itabiranos esperaram exatamente um ano para que a chama de desejo de Itabira ter uma usina de pelotização se aproximasse mais da realidade. Era tão intensa a esperança que, em agosto de 1995, quando se cogitava  da construção de uma montadora daVolkswagen na cidade, não havia tal expectativa porque o que se esperava era o dia 12  para que se decidisse a formação de um consórcio Vale-Acesita-Usiminas com o objetivo de nascer aí a realização do sonho itabirano.
 
O empreendimento realmente nasceu no papel, informou o futuro consórcio a Itabira e Centro-Leste em Revista (agosto de 1995, página 22): a usina custará aproximadamente R$ 190 milhões; irá gerar 280 empregos diretos na operação e prolongará a vida útil das minas de Itabira por mais 100 anos. E havia uma informação que garantia praticamente o sucesso da iniciativa e foi divulgado que a reunião decisiva era apenas para cumprir uma formalidade.
 
PELOTIZAÇÃO NECA!
 
Era este o título da reportagem da mesma revista, páginas 29 e 30: “Pelotização neca!” E este o subtítulo, ou “bigode”, da matéria: “Implantação da usina de pelotização em Itabira caminha para ser a terceira grande zebra da história da Vale na cidade”.
 
Aproveitando o embalo das frustrações, eis parte do texto publicado e que calou a cidade e a mineradora: “Em 1992, a Companhia Vale do Rio Doce anunciou que estava intermediando a implantação da montadora JPX, fabricante de jipes Auverland 4x4, em Itabira, mas o empreendimento foi instalado em Pouso Alegre, Sul de Minas. Em 1993, o entusiasmo da Vale virou para o compensado de madeira de alta densidade e novo anúncio foi feito: da implantação da Medium Density Fibreboard (MDF), que não foi para lugar nenhum. Agora, em 1995, quando já estava praticamente certa a construção de uma usina de pelotização na área da Conceição, a boa nova tende a tornar-se mais uma zebra”.
 
Para explicar a expressão “zebra”, a mesma matéria foi elucidativa. “O negócio é o seguinte: a Usiminas, uma das sócias do projeto, juntamente com a Vale e Acesita, adiou o seu plano de expansão para 1998. Apesar de tudo, quando soube que a zebra começava a pintar, o prefeito Olímpio Pires Guerra foi pedir socorro ao governador do Estado, Eduardo Azeredo. Antes havia a certeza de que o minério de ferro de Itabira sobreviveria até o ano 2100 com a fábrica de ‘pellets’. Agora, havia apenas uma tênue esperança, mais fina que uma linha de anzol”. O motivo era exatamente o adiamento da expansão da empresa siderúrgica do Vale do Aço.
 
Um alvoroço geral tomou conta da cidade que caiu em depressão perceptível, considerando os comentários de botecos, esquinas e reuniões de políticos. Imediatamente à decisão da Usiminas, a imprensa divulgava a notícia de que a Companhia Vale do Rio Doce e a sul-coreana  Pohang Iron and Stell Company — Posco criaram a Kobrasco, a sétima usina de pelotização da CVRD no Espírito Santo, com investimentos de US$ 215 milhões, que acabou sendo construída no Porto de Tubarão. Era o fim do sonho de Itabira.
 
A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM
 
Parecia uma réplica da ironia a um filme fictício, criado nos humores de botecos, esquinas e retretas: “A volta dos que não foram”. Estamos no ano 2000, mês de novembro. A revista DeFato publica matéria da editoria intitulada “A história se repete — novamente na pauta: Vale pode construir usina de pelotização em Itabira. A reportagem da página 17, do mês de novembro daquele ano começa assim: “Os itabiranos sempre ficaram intrigados com a seguinte questão: por que a Vale do Rio Doce ainda não construiu uma usina de pelotização em Itabira? As explicações nunca foram muito convincentes”.
 
E segue o texto: “Um novo anúncio envolvendo o tema ocorreu no dia 24 de outubro, em Mariana, quando Roger Agnelli, presidente do Conselho de Administração da CVRD, informou que seria escolhido entre Itabira e Nova Era o local para se instalar uma usina de ‘pellets’. Uma justificativa que explicava a existência de sete unidades do ramo no Porto de Tubarão, no Espírito Santo, resumia-se na desculpa de que pelotas sofrem danos quando transportadas via estrada de ferro, mas por que podem viajar de navio? Com isso, a Vale manteve em Tubarão, desde início dos anos 80, além de três usinas próprias, mais quatro em sociedade com grupos de outros países: Nibrasco, Hispanobrás, Itabrasco e Kobrasco”.
 
Em seguida, a reportagem contou a polêmica de 1995, quando do rompimento da ideia do consórcio Vale-Acesita-Usiminas. “A usina da Vale, segundo Agnelli, atenderia, além da Acesita e Usiminas, a Belgo-Mineira e a Açominas. O diretor executivo Mozart Kraemer Litwinski acrescentou que a definição só ocorrerá no próximo ano”, informa o texto, prognosticando apenas o seguinte: o dilema de Itabira não seria mais ver a Vale construir um projeto sempre sonhado mas vencer Nova Era numa concorrência política, sabendo que um homem havia no meio do caminho que poderia influenciar pela sua cidade natal. Esse homem era exatamente Eliezer Batista. E começaram as conversações nos bastidores.
 
MOBILIZAÇÃO GERAL: SONHAR É PODER
 
Em matéria de capa ocupando nove páginas (DeFato, dezembro de 2000, página 24 a 30) foi abordado o tema, que mostrou a mobilização geral de Itabira em busca a importante obra. Reuniões e mais reuniões se sucediam. Era prefeito da cidade Jackson Alberto de Pinho Tavares (PT), e acabavam de ser eleitos Ronaldo Magalhães (PSD) e João Izael Querino Coelho (PR). Além das lideranças que trabalhavam na cidade, estavam caminhando para a metade de seus mandatos os deputados estadual Luiz Menezes (PFL)  e federal Olímpio Pires Guerra (PDT).
 
O povo parecia ter dado as mãos e decidido encarar o desafio de peito aberto. Líderes comunitários locais assinaram um documento dirigido à CVRD, oficializando interesse itabirano, explicando as razões da reivindicação e mostrando que se tratava de um sonho de longas eras. Para se ter uma ideia, uniam-se Acita, CDL, empresariado, Movimento Negro, associações comunitárias, clubes de serviço, entidades filantrópicas, partidos políticos e seus membros. Centenas de líderes assinaram a carta de verdadeiro apelo à Vale. Faltou que fosse escrita uma súplica nos seguintes termos: “Pelo amor de Deus, Vale, olhai por nós!”
 
A nona página da matéria de capa se referiu a Nova Era, a rival de Itabira na intenção da CVRD. “A Lagoa também quer” constituiu o título do texto, cujo bigode estava assim publicado: “Prefeito faz mistério, mas Nova Era se mobiliza politicamente para obter o mesmo intento, a cobiçada usina de pelotização”. A exemplo do nascedouro do documento à mineradora, a Associação Comercial e Industrial de Nova Era (Aciane) preparou um abaixo-assinado imitando a carta dos itabiranos à empresa, e se dirigiram a ela pedindo o seu “pelo amor de Deus” também.
 
A editoria da revista esteve na cidade e entrevistou os seus líderes. Numa das reuniões da Câmara Municipal foi anotada a seguinte frase dos parlamentares nova-erenses aos itabiranos: “Se brigarem, a Vale pode decidir que nada dará, para evitar confusões. Assim perdemos todos nós”. Na mesma reunião, o então vereador Geraldo Sette declarou: “Vocês (os itabiranos) precisam aprender a mexer com dinheiro”.
 
ANÁLISE
 
Sem sombra de dúvidas, para Itabira a Vale edificar uma usina de pelotização seria uma grande conquista. Parece, no decorrer do tempo, uma obsessão do povo desta nossa  vamos assim dizer. Mas a  cada decepção, decorrebte de uma resposta negativa, sempre era notório entre o povo o sintoma de uma espécie de “dor de cotovelo”.
 
Em 2014, ainda com registro da revista DeFato (nesse tempo este colaborador estava fora da publicação), a empresa, por intermédio da associada Samarco, inaugurou o Projeto Quarta Pelotização (P4P) em Ubu, no Espírito Santo e em Mariana/Ouro Preto, da ordem de R$ 6,4 bilhões, nos municípios de Minas Gerais.
 
A visão do processo que vem do sonho e da esperança do povo que viu a Vale nascer e crescer em seu território, comparada à leitura fria e insensível da mineradora, não tem precedente. Acaba sendo uma prova inconteste de que a CVRD nunca foi uma empresa política, excessivamente técnica, mesmo quando era estatal.
 
CONCLUSÃO
 
Quem sabe um dia a empresa volte a encher de expectativas o povo itabirano?  Não como foram as expectativas do passado, que sempre deram em negativas notícias para a terra que tem como conterrâneo da empresa Carlos Drummond de Andrade. Sonhar de novo não custa um centavo sequer. Mas, vamos e venhamos, seria muito bom que não houvesse tapeação, invenções e falsos anúncios como ocorreu na história contada em levantamento de reportagens publicadas.
 
Em outras palavras, se um dia voltar a ser falado o assunto, que tenha consistência a notícia e não seja o falar por falar. Com absoluta certeza, Itabira não merece o que a empresa, sem piedade, deixou que o itabirano se tornasse: ingênuo e, como dizem nos botecos e esquinas, “com cara de tacho”.
 
José Sana
 
15/01/2019

 

 

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