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Boa tarde - Itabira, domingo, 15 de setembro de 2019   NOTÍCIA SECA CONTATO

DOCUMENTÁRIO  
Capítulo 15º: ITABIRA E AS PRIMEIRAS DECEPÇÕES
Como foi dado fim ao projeto moveleiro 17/12/2018

 
Sem ser pessimista, o itabirano, que já é macambúzio por natureza, tem muito o que apoiar a sua descrença nos negócios. No início do século XX, vieram os ingleses, que tinham informações não tão secretas, mas fora do alcance dos donos de terras em Itabira, e compraram as minas. Foi o primeiro “tombo” da história itabirana. Os nativos venderam lebre por gato e mais barato ainda. 
 
No tempo das eloquências politico-parlamentares, mesmo  no período de ditaduras -  como de Vargas (1937-1945) e militar (1964-1985 ) -, além de épocas de liberdade política, sendo a Companhia Vale do Rio Doce uma empresa estatal, prevaleceu a demagogia em torno de valorizar ou não a presença da mineradora no município, com forte influência econômica na região. Alguns deputados, da situação ou da oposição, sempre comentavam em seus discursos que, no Brasil, as empresas mineradoras, para enganar o povo, construíam igrejas e, quando não havia mais espaço para esses tipos de demonstração de fé, passaram a assinar convênios. E a vida continua.
Em 1993, como foi informado no capítulo anterior, com a posse de Olímpio Pires Guerra à frente da Prefeitura local, o então superintendente das Minas da CVRD, Ricardo Dequech, começou a se empenhar pela instalação de uma forte indústria de móveis em Itabira, que seria o mais forte gerador de empregos e renda depois da mineração de ferro. 
 
Em junho de 1993, os executivos Ricardo Dequech e César Rolim, esse funcionário da empresa e diretor da Agência de Desenvolvimento de Itabira, chefiaram uma comitiva à África do Sul em busca de entendimentos com vistas a instalar, no bairro Campestre, uma fabrica de Medium Density Fibreboard (M.D.F.). Fizeram parte da caravana, também, Fábio Medeiros e Celso Castilho, ambos da Florestas Rio Doce (Itabira e Centro-Leste em Revista, julho de 1993, páginas 12 a 13). 
 
Retornaram otimistas da viagem, que incluiu, na rota, cidades de Portugal, Espanha e Alemanha. E deram como certo o empreendimento, que seria o início de um poderoso polo moveleiro, considerando o alto conceito, fator apurado pelos representantes itabiranos na Europa e África do Sul, constataram eles que M.D.F. representa o agrupamento de peças que formam um produto de alta qualidade, de tecnologia acessível e de mercado sofisticado e aberto.
 
Não havia nenhuma dúvida quanto a detalhes sobre a fábrica de M.D.F até novembro do mesmo ano. Naquele mês, economista e secretário de Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de Itabira, Frederico Penido de Alvarenga, trouxe uma surpresa desagradável naquele fim de ano para a cidade, encerrando as promessas da mineradora sobre o fim dos sonhos da M.D.F. Aí, a Prefeitura voltou a centralizar as suas atenções na indústria mineral, na concentração de pequenas. empresas no Distrito Industrial, firmando-se na atividade metal-mecânica, e até na agricultura, fator que já havia sido abandonado fazia anos, tema que voltaremos a focalizar. 
 
DE FLORESTAS, PAPEIS E MÓVEIS
 
Muitos mpreendedores itabiranos também viram na madeira uma saída para o desenvolvimento de Itabira e região, alguns chegaram a investir em reflorestamento. Em 1968, a CVRD havia criado uma de suas principais subsidiárias, a Florestas Rio Doce S.A., como parte do projeto de diversificação econômica. Dois anos depois, deu ênfase à diversificação nas áreas de mineração — bauxita/alumina/alumínio, manganês, titânio, fosfato/fertilizantes, pelotas e ferritas magnéticas. Dando sequência à visão empresarial da área de exploração de madeira, criou, em 1973, em sociedade com a Japan Brazil Paper and Pulp Resources Development Co. Ltd — PBP, a Cenibra, uma das maiores produtoras mundiais de celulose branqueada de fibra curta de eucalipto, localizada em Belo Oriente, nas proximidades de Ipatinga, Vale do Aço.
A expansão da Florestas foi, sem dúvida, um incentivo a acreditar no projeto moveleiro mas, não toda a força necessária. O mercado visitado pela comitiva itabirana, na Europa e África, tinha apresentado, depois, sinais que forçaram a desistência, sem explicações,  da frente que tinha foco na madeira. 
Mas a Companhia Vale do Rio Doce, que já dava sinais de abrir caminhos para a privatização, com Francisco Schettino na presidência, fez de conta que não desistiu da ideia da madeira. A prova está estampada na página 17 de Itabira e Centro-Leste em Revista, em publicidade lançada pela CVRD e FRD, informando aos itabiranos que estava funcionando, no mesmo local em que se localizaria a M.D.F., no bairro Campestre, sua Fábrica de Painéis de Pinus. A previsão da dupla de matriz e filial era que produziria, ainda em 1994, 300 metros cúbicos de painéis por mês  e, no ano seguinte, aumentaria para 1.000 metros cúbicos para dobrar a produção em 1996. Eram poucos os funcionários da fábrica, mas as empresas informavam que se tratava de “expressivo número de empregos diretos e indiretos”. A iniciativa durou muito pouco e nem chegou à sobrevida em 1996.
 
CONFIRMANDO O FIM
 
Em entrevista à revista, ainda em 1994, o superintendente Ricardo Dequech explicou que a tentativa de implantar a grande empresa de madeira na cidade não estava morta. Disse ele: “Na verdade a ideia continua (da M.D.F.). A questão é a procura de um parceiro. A Vale tem a madeira, a ferrovia e o porto. Procuramos alguém que nos traga tecnologia, isto é, um parceiro preparado. Tínhamos contato com a Duratex  que, na última hora, desistiu. Continuamos à procura de um parceiro”. (Itabira e Centro-Leste em Revista, edição 21, mês de setembro de 1994, páginas 6 a 10.
 
Com o tempo passando e nada acontecendo, em 2 de outubro de 2002, a Companhia vendeu sua controlada, a Florestas, para a Aracruz Celulose S.A.e a Bahia Sul Celulose S.A. A Cenibra havia sido vendida para a sócia da CVRD, a JBP, em 2001.
 
ANÁLISE
 
Em 1994, Dequech e Li Guerra, amigos e empenhados na diversificação econômica itabirana, não conseguiram decolar a iniciativa do polo madeireiro em Itabira. Com foi dito por Dequech, procurava-se um parceiro. Se conseguisse, ele admitia a hipótese de abrir o mercado para a construção de um polo madeireiro-moveleiro. 
 
Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, é considerado hoje o maior polo moveleiro do Brasil, com cerca de 120 mil habitantes, algo em semelhança populacional com Itabira. Esse grande polo é formado por mais de 300 indústrias de móveis, números que correspondem a 41% da indústria local. O faturamento anual supera a faixa de 2 bilhões, fazendo com que outras atividades, como o turismo, passem a contribuir com o progresso.
 
Ubá, na Zona da Mata de Minas Gerais, com população estimada em 100 mil pessoas,  representa o terceiro polo moveleiro do Brasil, mas a sua principal atividade econômica tem outros setores que contribuem, como o de serviços. O tradicionalismo é acentuado, a origem do arraial vem do século XVII. As atividades de fabricação de móveis foram iniciadas há mais de um século. O amplo campo de negócios proporciona a realização de uma das maiores exposições de fabricantes do Brasil, a Feira de Móveis de Minas Gerais (Femur). Daí, o nascedouro de atividades voltadas também para o turismo.
 
CONCLUSÃO
 
Será que Itabira consegue, depois de 25 anos decorridos de importantes desistências da madeira, soerguer a ideia do polo moveleiro? E mais: implantando empresa que gera 50 empregos? De onde a matéria-prima virá? É preciso dizer que a CVRD demonstrou interesse, lutou, correu atrás, teve comitiva em outros países, e acabou deixando morrer o entusiasmo e a esperança. Logo a CVRD empenhada, o governo municipal empenhado, os fatores conspirando a favor. E não houve o arremate da ideia.
 
Não se trata agora de pessimismo. A hora itabirana parece ser mais imediata e mais voltada para o setor universitário, a formação de um parque tecnológico, ideia antiga, fortalecida pelo entusiasmo de setores importantes e personalidades marcantes.
 
É claro que não se deve desprezar o empreendedorismo de alguns, ou muitos cidadãos. A força de cada um é a mesma, ou até mais acentuada, que de outras pequenas indústrias. É preciso avaliar e investir. Mas, com certeza, o foco tem que ter maior poder de trabalho voltado para o que se dispõe em fazer agora: tornar a cidade mais agrupada para um ataque em massa no rumo do desenvolvimento, pois já perdeu tempo demais e já sabe quais os resultados poderão advir.
 
Importante anotar: cuidado com iniciativas que não têm consistência e só tomam o tempo! Vejam os exemplos — e vêm mais outros registros do passado para clarear este caminho — como as tapeações que  sugaram a paciência do itabirano, uma raça fácil de nela passarem a perna, como foi dito, dos ingleses à madeira.
 
Fotos : Reflorestamento e Móveis/Cidades: Bento Gonçalves (RS) e Ubá (MG)
 
José Sana

 


 

 

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