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Boa tarde - Itabira, domingo, 15 de setembro de 2019   NOTÍCIA SECA CONTATO

DOCUMENTÁRIO  
Capítulo 12º: CARTA ÀS BOLSAS DE VALORES DOS EUA
Empresa presta contas 30/10/2018

 

APRESENTAÇÃO

Estávamos paralisados. Interrompemos esta sequência com uma entrevista. Esperávamos passar as eleições nacionais. Precisávamos saber em que rumo Itabira se situaria depois do pleito eleitoral. Vencesse a esquerda,  haveria a necessidade de uma readequação à proposta socialista do governo que mandaria ordens de dentro de uma penitenciária.

Como venceu o outro lado, o capitalista, ficou mais fácil formular propostas. Afinal, o mundo  em que a  empresa se situa está completamente no oposto à propagação da pobreza. Pelo contrário, a miragem é outra. É preciso que os contrários entendam: o capitalismo é o único sistema econômico que pode  promover o bem, a liberdade, a democracia. É preciso conter alguns ímpetos de selvageria. São ajustes que precisam ser acompanhados.

Agora, a ideia é apresentar um rascunho de documento  a ser feito, neste capítulo, que é mostrar como uma imaginária  carta  da  Mãe, Madrasta ou Filha (MMF) às Bolsas de Valores dos Estados Unidos  da  América do Norte. Reparem e repito: uma correspondência não falsa, mas imaginária se constitui este papel.  Aí a mineradora deve suas explicações para crescer, vender, investir, manter-se no auge. Depende, pois, de aprovação dos setores econômicos. O mundo é, desde muito tempo atrás, de competividade. Necessário é  afirmar que já não funciona  mais aquele detestável caminho das lutas de classes. Tudo mudado. O realidade é outra. Vamos acordar e pegar a trilha do desenvolvimento. Itabira, parte do mundo, que se agarra à origem da antiga empresa, não pode perder o trem da história.

Em seguida  a esta carta, voltaremos aos autores, ao raciocínio histórico de reconstrução e esclarecimento sobre  fatos ocorridos no decorrer da  preparação, criação e funcionamento da MMF,  dos tempos de estatal aos dias atuais. A iniciativa de inserir este novo documento — CARTA  ÀS BOLSAS DE VALORES DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA DO NORTE — prende-se à exiguidade de tempo. Afinal, nem vejo os negociadores com a MMF correndo, mas o tempo não liga para este detalhe.  É preciso levantar o passado e o presente mais concisamente para que não haja atraso em eventuais negociações. Pelo menos eu cumpro o meu dever. Estou registrando esta realidade agora.

A  CARTA

Às Bolsas de Valores dos Estados Unidos da América do Norte,

Saudações.

Cumprindo o sagrado dever de informar e me garantindo como empresa idônea, venho diante desta valoroso  setor de avaliações de condutas e participação no mercado financeiro internacional, as Bolsas de Valores dos Estados Unidos, como empresa mineradora  de renome, apresentar as devidas confissões de erros cometidos durante 76 anos e quatro meses hoje computados (29/10/2018), na esperança de que possa corrigi-los, de acordo com entendimentos com os setores atingidos (Itabira, sua região e região de influência da empresa. Admito ter dívidas a pagar perante vários municípios, grande parte de Minas Gerais e uma outra gleba no Estado do Espírito Santo. Mas é preciso dizer, também, que já executei várias atividades que podem ser chamadas de virtudes.

Apresento-lhes, no último ítem, algumas ações que prometo empreender a partir de agora para que possamos mudar, definitivamente, a história da mineração no mundo. A seguir, vamos enumerar todos os itens:

001 — Eu, MMF, cheguei para me inaugurar em Itabira, em 1º de junho de 1942 e encontrei uma região inóspita, inexplorada, intata, virgem. Mas havia uma riqueza que ninguém nunca tinha visto e que eu, ainda como governo apenas, cobiçava desde o século passado: minas de ferro de hematita, além do ouro sedutor, esse que atraía as bandeiras e fazia se expandir, desde séculos anteriores, as chefias de capitanias hereditárias.

002 — Eu, MMF, encontrei um povo receptivo em Itabira, desde o Mato Dentro, passando por Presidente Vargas e voltando a Itabira.  Eram, segundo historiadores, 4.700 almas na área urbana e  6.800 na zona rural. Esse contingente  itabirano  pensava, a princípio que eu tivesse dinheiro, pelo menos uns trocados, alguns recursos financeiros. Que nada! Estava eu de bolsos vazios, furados, completamente. Na verdade, eu só tinha dois fatores a meu favor: a Segunda Guerra Mundial, que pegava fogo no Velho Mundo e necessitava de matéria-prima para construir armas (para os Aliados) e o sentimento nacionalista que dominava o governo do Brasil.  Ambos foram fatores fundamentais para a arrancada que me foi  impulsionada. Mas era  ainda muito pouco. Eu estava de pires nas mãos, como uma pobre miserável, pedindo um níquel aqui e outro ali, fazendo dívidas que não sabia que um dia conseguiria saldar. Nas chamadas vendas (botecos ou armazéns) de Itabira já refletiam as falas do ex-vereador de outras eras (século XIX, o anterior), Tutu Caramujo, ou seja, era imensa a parcela do povo que acreditava na “derrota incomparável”.

003 — Como detalhe de problemas enfrentados no início de minha operação na cidade que se chamava Presidente Vargas (ex-Itabira), mandei um portador pegar uma dúzia de pregos e parafugos numa das vendas que existiam. Ele voltou da porta e anotou o que estava escrito num cartaz pregado numa das prateleiras: “Nesta Cia nada se fia!”

004 — Contudo, apareceu  uma alma diferente, corajosa, de coração de mãe e me acolheu. Essa criatura  chamava-se  Pedro Martins Guerra. Era um engenheiro rico, dono da Fábrica de Tecicos da Pedreira, que empregava mais de 200 funcionários. Dr. Pedro Guerra  livrou-me da anunciada falência antes que ocorresse. Graças a ele, pude começar a exploração de minério de ferro, contratar mão de obra, comprar equipamentos (picaretas, machados, foices, enxadas, balaios, burros etc.), além de dinamites, tudo muito simples porque a hematita, a mais rica do mundo, encontrava-se à flor da terra.

005 — Além da Fábrica de Tecidos da Pedreira, Presidente Vargas (Itabira), submissa à Ditadura Vargas, tinha outra indústria do ramo têxtil, que contratava, também, mais de 200 servidores, a Fábrica de Tecidos da Gabiroba. Para  reforço  econômico, abundavam forjas de ferro, que somavam 14 unidades em 1942.

006 — Eu, MMF, fundei a Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM). Fiz errado?  Acho que desta vez, acertei. Só não  tomei o cuidado de chamar as forças vivas da cidade para conversar a respeito do crescimento econômico, fazer alguma parceria, oferecer préstimos, montar projetos. Mas, acabei engolindo (apagando) as fábricas de uma só vez:  busquei a mão de obra com salários mais altos que os usuais e, consequentemente, fechei tudo de uma só vez: fábricas diversas, que perderam tudo, a partir da mão de obra.

007 — Avanços meus, como empresa que começava a se firmar, graças a ajudas de alguns filhos da cidade, como Dr. Pedro Guerra, citado, estavam por vir. Estabeleci, seguindo  Karl Marx e Engels, no trabalho de separação e lutas de classes: construí casas miseráveis para os pobres e verdadeiras mansões para os que foram contratados para cargos superiores. Dei  veículos  e  motoristas para atendimento aos ricos e nem um cavalo manco entreguei à plebe. Acentuei a necessidade de fazer com que os ricos subjugassem os pobres (era praticamente proibido um simples cumprimento, um “bom dia” partir da classe alta à classe baixa).

008 — Com a separação de classes, ficou  evidenciado o seguinte: Presidente Vargas, que voltou a se chamar Itabira quando terminou a Ditadura Vargas, seria, eternamente, uma cidade-acampamento. As construções de instalações sempre foram precárias durante muitos e muitos anos. Os engenheiros estavam escalados para comprar imóveis noutras regiões, especialmente em Belo Horizonte, a capital, já que receberam, durante mais de 40 anos, ou um imóvel próprio, cedido, ou tinham alugueis pagos, fato que contribuiu para apunhalar Itabira com mais força ainda, pois aí o mercado ficou  inflacionado e quem não era meu funcionário não aguentava pagar e entrava para a classe miserável, que se abria para a periferia. Para completar, os meus altos escalões nem veículos adquiriam  em Itabira. Resumidamente, condenei Itabira a ser, para sempre uma cidade pobre. Se ela cresceu, para isso nada fiz, ou até, pelo contrário, contribuí terrivelmente para a sua derrocada.

009 — Confesso que fui  racista ao extremo. A minha única defesa é que não havia combate a esse preconceito nos meus tempos iniciais em Itabira e em outras cidades. Vamos dar um exemplo fatídico: autorizei que um clube fosse criado dentro de minhas instalações em Itabira, o Nada Doce Esporte Clube (Nadadoce).  Fiz muitas exigências para que isso ocorresse, inclusive que as rédeas ficassem sob o meu controle. Construí para esse Doce Amargo  uma praça de esportes para lazer dos funcionários da empresa e dos associados. Ordenei que criassem categorias sociais para frequência em natação, horas dançantes, bailes etc. Para diferenciar as classes, criei e construí   uma sede do clube no Bairro do Pará. Para  ingresso nesse clube específico estabeleci  o verdadeiro racismo. Para que alguém se filiasse à categoria “especial” seria preciso que a sua ficha fosse analisada por uma comissão especial da diretoria e, aprovada ou não. Normalmente, um candidato da ralé,  ou negro, não tinha o direito de ser associado  especial.  A regra prevaleceu para sempre, até quando descartei o clube ao iniciar o processo de  privatização.

0010 — É preciso registrar o seguinte: até o ano de 1967, ou seja, durante 25 anos de exploração minerária em Itabira, não paguei um só níquel de impostos nem ao governo federal, nem ao estadual, quanto menos ao municipal. Mas  me eximo de culpa porque não existia legislação alguma que me obrigasse a participar de qualquer contribuição. O Decreto-Lei  número 227, de 28 de fevereiro de 1967, denominado Código da Mineração, regulamentou os direitos sobre as massas individualizadas de substâncias minerais ou  fósseis, encontradas na superfície ou no interior da terra, formando os recursos minerais do país; o regime  de seu aproveitamento e a fiscalização eram executados  pelo Governo Federal, da pesquisa, da  lavra e de outros aspectos da indústria mineral. É dada nova redação ao Decreto-Lei número 1.985, de 29 de janeiro de 1940, Código de Minas. Nesse ano, portanto, 1967. criaram o chamado Imposto Único sobre Minerais (IUM). No entanto, para Itabira pouco resolveu , a incidência era baixa e a distribuição injusta: 70% para o Estado, 10% para a União e 20% para o Município.

011 — Sem  pagar impostos, nada a Itabira, porque não havia uma legislação específica sobre mineração no Brasil, confesso que poderia ter-me redimido ao fazer cumprir os meus estatutos que  assim rezavam em seu artigo 2º: “Em Itabira deve instalar-se a sede da MMF.  Nos anos de 1954 e 1955 foi empreendida uma grande campanha  nacional  para  que eu cumprisse essa norma determinada nos estatutos. Confesso, humildemente, pedindo perdão, estou arrependida e não cumpri e sequer dei ouvidos aos pedidos de itabiranos que foram liderados pelo advogado José Hindemburgo Gonçalves e pelo então prefeito, Daniel Jardim de Grisolia.

012 — Nos anos 1970 e 1980 implantei duas grandiosíssimas iniciativas em Itabira e, reconheço, arrebentei com a pequena urbe, que tinha menos de 40 mil habitantes: os projetos Cauê e Conceição, seguidamente. O objetivo era melhorar o teor de minério de ferro por meio de concentração de itabiritos e, assim, vender mais a matéria-prima  itabirana. Itabira recebeu forçosamente e sem estrutura alguma mais 30 mil funcionários de empreiteiras. O fato fez com que as vias  itabiranas se congestionassem, acabando de vez com a paz da cidade e ameaçando o progresso e o desenvolvimento. Sem infraestrutura (água tratada, luz, redes de esgoto, coleta e tratamento de lixo), além de faltar moradias dignas, não houve a devida preparação para esse novo ciclo de crescimento. Como empresa responsável por tudo o que estava acontecendo, sequer avisei ao poder público sobre o caos que estava preparando. O setor de segurança se constituiu verdadeira catástrofe.

013 — Preciso confessar que ocorreu um golpe certeiro na estrutura itabirana, talvez nem mereça perdão em toda a existência. Em 1976, convoquei a imprensa nacional  no  Escritório do Areão (que havia sido construído em 1965 para tapear o povo a respeito da instalação da sede em Itabira). Montei um aparato de radiotelefonia para distribuir a notícia fatídica resumida mais ou menos no seguinte: “Senhoras, senhores, brasileiros, brasileiras, temos o grato prazer de comunicar ao Brasil e ao mundo que a Mineradora  não explora somente o minério de ferro em Itabira, mas também o ouro.  Existe um percentual elevado de ouro no minério de ferro. Estaremos inaugurando nos próximos dias um Projeto-Piloto para a separação dos metais”. Além das interrogações plantadas na cabeça dos donos do ouro, os filhos da cidade, ficaram sem respostas  para as suas dúvidas, como, por exemplo, quanto tempo Itabira andou perdendo valores, exportando e vendendo ao contrário, lebre por gato.

014 — Nem é preciso escrever, nem  falar, nem comentar. Itabira se tornou uma “Serra Pelada  Mineira”. Chegou  naquele momento não uma mão de obra masculina, adulta para trabalhar em empreiteiras. Aportaram, sim, milhares de famílias, a maioria gente faminta, via estrada de ferro e via rodovias. A cidade sem espaços para abrigar todos.  Os invasores entraram em espaços públicos e áreas verdes. Os problemas foram se acumulando, indescritíveis. Garimpeiros de todas as caras e quaisquer naturezas e origens tomaram conta da cidade. Crimes e mais crimes se sucediam, registrando-se pandemônios na vida da velha terra drummondiana. O maior crime fui eu, MMF, que cometi: a minha turma de fiscalização aguardava que os garimpeiros penetrassem dentro de galerias subterrâneas onde eram despejados o minério e o ouro para seguirem aos depósitos de rejeitos. Por ali eles desapareciam como se fossem também um rejeito humano. Centenas e centenas de seres humanos desapareceram-se deste mundo. Houve audiências públicas na Câmara Municipal com deputados e secretários e representantes da MMF. Houve relatos dramáticos. Foi publicado na imprensa que havia, pelo menos na Chácara Minervino, um grande, lúgubre  e assombrado “cemitério clandestino”.

015 — Esse tempo turbulento passou. Houve uma mudança de mentalidade razoável e passei a ser um pouco mais dócil com a cidade que me acolheu. Então, dediquei-me a tomar cuidados com certas atitudes próprias da violência. Ainda bem que o garimpo acabou. Mas veio, em seguida, a fase de preparar-me para a temida privatização. Determinei que fosse feita uma distribuição, ou entrega de mãos beijadas, de verdadeiros bens à comunidade, diretamente à  Prefeitura. Aqui  para nós: doei a Itabira grandes presentes de grego, imóveis e instalações que não lhes eram úteis. O maior deles, provado ficou porque fracassou inteiramente, chama-se Nadadoce Esporte Clube. É chamado de Nada Doce, divulgava o meu nome, mas se vem a  privatização, o que vou fazer com essas coisas desnecessárias? E seguiram algumas outras bugigangas que de nada valem. Itabira, como uma verdadeira cega de olhos abertos, aceitou tudo, e ainda agradeceu. 

016 — Agora,  iniciei a fase do “me faz de bobo que eu gosto”. Isso foi exatamente quando preparava a privatização:  mandei  avisar  à comunidade itabirana que eu, MMF, jamais sairia de minha cidade-mãe, Itabira. Mostrei os grandes e “lógicos” motivos: tenho um grande patrimônio enterrado em Itabira, o que não doei e jamais doarei a quem quer que seja. O patrimônio está sempre aí para ser usado em benefício da comunidade. Todos acreditaram. 

017 — Para atender às legislações que sempre criaram, consegui ludibriar a ingenuidade do povo. O grande problema que oferecia à cidade chama-se poeira, ofensa à saúde do itabirano. Fizemos dezenas ou centenas de reuniões, na presença de autoridades, das chamadas forças vivas da comunidade e do Ministério Público. As denominadas condicionantes eram e são sempre evidenciadas com prazo de cumprimento e ações objetivas. Para  conter a poeira,  aperfeiçoei-me  ao máximo  em criar estações de avaliação. As leituras eram feitas sistematicamente e quem fiscalizava era exatamente eu, MMF. Já viram falar em “raposa tomar conta de galinheiro?” Era  exatamente o que ocorria.  Ligavam para as estações de informações e as respostas eram taxativas: “Números abaixo da tolerância”. Se havia uma tempestade de poeira, os telefones tilintavam sem parar. e ninguém atendia.  Mas sabia eu que amanhã, ou depois, chegaria a  bonança, como diz o ditado. E assim, anos e anos foram empurrados.

018 — As discussões sobre condicionantes  caminharam anos a fio. Cansei de ir às reuniões, assembleias, para discutir, receber sentenças, dar a minha opinião, sempre concordando com tudo e com todos. Tudo o que pediam, acenava dizendo que era “uma barbada”. A sociedade civil organizada e movimentos sociais lutavam  pela correção do licenciamento ambiental, mas no final fica tudo no papel e eu sme saí bem de todas as reuniões. Ninguém fiscaliza nada.  Os problemas ambientais sei que têm proporções alarmantes, com a degradação da paisagem e a poluição de todo o tipo envolvendo o quadro natural e os aspectos políticos, econômicos, sociais e culturais da região.  A extensão da mina é imensa e a céu aberto. Nela há movimentação de grandes quantidades de materiais que, depois de beneficiadas, geram  enormes áreas de estéril  para a recomposição vegetal. Eu não tenho compromisso algum com isso. O que me pedem, faço  e dou de bom grado, sem criar problemas. Por exemplo, queriam praças de esporte e de lazer em troca de bronquites, sinusites e rinites, achei legal a proposta e  topei.  Exemplos de praças que entreguei  que, se ainda não foram todas destruídas, é só aguardar que tudo vai acontecer: Acácia, não existe mais; Belacamp e Juca Batista, abandonadas.

019 — A questão da água, eu, MMF,  asseguro a vocês com absoluta convicção: acredito que deixarei  Itabira “a ver navios”. Navios sem água, é claro. Sabemos que existem bacias de água inundando o redor da mineração que não acabou nem vai acabar nunca. Mas, extrair  essa água e distribuí-la , eis o grandiosíssimo problema. Rebaixamento de lençóis freáticos sempre é especialidade da mineração e eu não fujo à minha missão de secar mananciais. Repito que estou a ponto de deixar o itabirano como papagaio, aquela ave que sobrevive à seca. Ou será que tudo aqui não será mesmo um deserto?

020 — A bem  da  verdade, se a verdade merece algo de bem a esta altura, é bom lembrar que acabei com um clube social da cidade, agora outro, o Real Campestre Clube. Precisei tomar conta de seu espaço usado havia  longos anos. Questão aquática, já esclareci. Mas construí um outro clube bem mais amplo, bonito, arborizado, com grande conforto. Mas, e a água? Confesso que não haverá água nesse clube daqui a poucos anos. Ou não haverá dinheiro que pague o bombeamento desse indispensável líquido. Piscinas, saunas, outros consumidores de água, não haverá.  Eu pago hoje o bombeamento da água, colocada a mais de 500 metros, por elevado valor. Pago caro, mas o meu pagamento  encerra rápido. Vou embora e fim. Os associados do Real Campestre Clube que se virem..

.021 — Cadê a Central de Resíduos  que tanto foi discutida durante as reuniões para renovação de licenças ambientais? Mais uma dívida que nem sei se vou pagar. Juro que não somente eu me desinteresso por esta questão, mas as próprias autoridades, demonstram claramente que não estão nem aí.

022 — Antes de dar prosseguimento aos “enrolos” nos quais me envolvi, não posso deixar de  falar da diversificação econômica que em Itabira tanto requerem. Devo  esclarecer que chegaram a fundar várias empresas desde as fábricas de tecidos, além das forjas de ferro. Nos tempos atuais, inventei, como verdadeira  Madrasta, criar um polo moveleiro na cidade. Era conversa fiada minha quando falei em Medium  Density  Fiberboard (MDF), que funcionou por uns seis meses com  meia dúzia de  funcionários. Na verdade,  eu confesso, de pés juntos e com a mão numa bíblica imaginária: estava enrolando o povo itabirano.

023 — É bom dizer que eu, a empresa MDF, nunca investi um centavo no Distrito Industrial de Itabira, como andaram apregoando por aí. Foram  mais notícias falsas que tentaram me salvar e isso não mereço.

024 —  Se  fiz alguma coisa por Itabira  foi, realmente, quando tentei  trazer a Universidade Federal de Itajubá (Unifei) para a cidade. Realmente, a iniciativa  foi  inicialmente minha, MMF.  Aí, a  Prefeitura e a própria Unifei. chegaram juntas.  Nasceu, então, a parceria que espero dê certo, mas registro o aviso: é preciso depor esse inimigo de Itabira chamado de reitor da universidade. Verdadeiro inimigo da comunidade itairana. Ele está simplesmente desligando a chave de esperança de Itabira que, confesso, não merece isso.

a) — No início exigia que meus funcionários, os quais chamava de empregados e eram, na verdade, escravos, trabalhavam na picareta, machado, enxada, enxadão, foice e outras ferramentas; eles permaneciam no trabalho até durante 48 horas, ou mais, e nunca recebiam um centavo de horas extras;

b) — Quando consegui me tornar uma empresa lucrativa e estável, daí a rica e riquíssima,  às custas de tudo — minério fácil e rico, mão de obra explorada e total liberdade para estragar a cidade — pude dar “boa vida” para alguns, especialmente os bajuladores; mas a política de diferenciação entre eles eu promovi e incentivei durante longos anos;

c) — Ao tornar-me empresa privada, a partir de 6 de maio de 1997, a política de exploração de mão de obra voltou a funcionar, desta vez tento explicar como fator central, explicativo, a necessidade de ser a empresa competitiva. O Sindicato Metabase não se cansou de denunciar, mas pouco resolveu, eu sempre ameacei e fiz o prometido: demiti funcionários até quando quis.

027 — O maior estrago que fiz em Itabira e nas cidades de influência pode ser resumido na seguinte expressão: BOLSÃO DE POBREZA. Basta rever todos os estragos provocados, desde êxodo rural até inflação imobiliária, salarial, destruição de empresas e outros fatores mais. Não consegui ser a empresa que a diretoria quis desde o início: de promotora do desenvolvimento de uma região. Fracassei.

028 — Eu, MMF, sempre cumpri os compromissos legais a mim determinados pela legislação, mesmo que do meu  jeito. Como exemplo, ofereci  fino de minério de ferro em suspensão e, para  compensar, construí  praças de esporte e de lazer.  As reservas minerais de Itabira sempre foram a razão de meu nascimento, crescimento e longevidade. Em suma, nasci e me tornei a primeira ou a segunda mineradora do mundo graças a Itabira. O mirabolante  Projeto Carajás  só foi possível  porque  Itabira  o  sustentou. Quero  sair  de Itabira de forma harmônica, em paz e não desejo que, embora reconheça  que sou ré na Justiça, pretendo liquidar a fatura com rapidez porque se a Justiça  for novamente acionada (e eu devo mais de 13 bilhões de dólares ao município), a causa será arrastada por anos e mais anos e perderemos todos: eu talvez seja  rebaixada nas Bolsas de Valores  dos Estados Unidos e Itabira morrerá à míngua. 

Então, penso seriamente em:

1) Continuar ampliando o projeto da Unifei.  A previsão é que tenhamos no mínimo dez mil alunos no Campus de Itabira. Mas quem vai destituir o reitor inimigo da cidade não será eu? Essa barra não quero enfrentar. O rapaz é osso duro de roer.

2) Implantar o Centro de Tecnologia Aplicada (CTA) e o Parque Científico e Tecnológico (PCT) na cidade.

3) Construir o Aeroporto Industrial de Itabira na Serra do Tambor, cujo projeto já existe. No mesmo aeroporto, instalar a Estação Aduaneira Interior (EADI). Com isso pretendo reparar um outro erro cometido por mim, no fim da década de 1960, quando desativei o aeroporto que funcionava no Bairro do Campestre.

4) Reativar o Porto Seco, que antes existiu e eu própria desativei, a Estrada de Ferro Vitória a Minas.

5) Criar o Polo Logístico Integrado com a instalação de grandes empresas que manterão Centros de Distribuição (CDs) para distribuição de produtos para as regiões Leste e Nordeste de Minas Gerais.

6) O mais interessante que as autoridades de Itabira nem me cobraram ainda e prometo seriamente: serei parceira, me ingressarei como sócia de todos os projetos que tentar captar para o município de Itabira. Mas, caso não se interessem pela minha participação, confesso: até agradeço para me dispensarem.

E assino esta carta como garantia total de que estou mesmo disposta a reconstruir uma nova cidade, uma NOVA ITABIRA.

Rio de Janeiro/Itabira, 30 de outubro de 2018 (data de aniversário do poeta Carlos Drummond de Andrade).

ASSINADO: Mãe, Madrasta e Filha (M.M.F.).

Fotos - 1. Fábrica de Tecidos da Pedreira (Museu de Itabira)

            2 - Arquivo Vale

            3 - Arquivo Vale

            4 - Paisagem itabirana (Museu de Itabira)

            5 - Paisagem da lagoa de detritos Bairro Bela Vista (Foto Silva)

José Sana

30/10/201

 


 

 

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