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Boa tarde - Itabira, domingo, 15 de setembro de 2019   NOTÍCIA SECA CONTATO

DOCUMENTÁRIO  
Capítulo 10º: REVELAÇÕES OU REPETIÇÕES?
Como Itabira resistiu à segregação 14/09/2018

 
AONDE VAMOS CHEGAR?
 
Estou em Itabira, atravesso uma rua depois uma avenida agitadas, e alguém me chama pelo nome. Ou melhor, solta um grito estridente.  Ou acabo de entrar num estabelecimento comercial e me interpelam como se eu fosse, ainda, como já fui, figura pública. Recebo dezenas de mensagens pelas redes sociais que me arguem em temas aqui discutidos. O telefone toca e alguém quer saber algo sobre o assunto abordado que tanto me esquenta o tempo já cheio de energia e vontade. O enfoque  do momento ainda parece, para alguns, por mais incrível que seja, uma incógnita. E  é exatanebte este: a mineradora Vale está mesmo deixando sua terra-mãe. Acredite que muitos preferem não acreditar. Se isto é bom, quem sabe seja. 
 
Conversas de botequins, salões de beleza, esquinas e velórios dão um  toque lúgubre de meia angústia.  Mas, em compensação, surgem sugestões, indicações de obras, textos acadêmicos e narrativas sobre detalhes vividos, além de  pedidos do tipo “escreva sobre isto”  Há dezenas de perguntas e a mais comum é:: “Você está escrevendo um livro?” Quase sempre me esquivo porque o futuro a Deus pertence, mas, por vezes sou impelido a dar esta resposta:  “Não sei, talvez, quem sabe!”  Até já me arrisquei a balbuciar um “acho que sim”, considerando a curiosidade avançada do interlocutor. Aconteceu o caso de um que me revelou haver mistério envolvendo o tema. Até que, por ser mistério, termo que me deixa quase sempre deslumbrado, faço absoluta questão de ouvir. E anotar. 
 
PRIMEIRA REVELAÇÃO
 
Aparece um questionamento meio ou todo separatista: “Você sabia que antigamente a velha CVRD obrigava os seus engenheiros a não ser populares?” Sou todo ouvidos. Só me aquiesci com a cabeça, sabia que os engenheiros eram caras-duras era assunto da boca pequena, mas nunca tive conhecimento, nem acredito, que tal ordem de separar os pobres dos ricos  partia da direção da empresa. Mas vamos adiante. O interlocutor agora é mais incisivo: “A Vale promovia durante longo tempo uma espécie de segregação?” Após a pergunta, explicou, lendo num papel que estava amarrotado no bolso o significado do termo: “É o processo de dissociação mediante o qual indivíduos e grupos perdem o contato físico e social com outros indivíduos e grupos. Essa separação ou distância social e física é oriunda de fatores biológicos e sociais, como raça, riqueza, educação, religião, profissão, nacionalidade.” Em seguida, disparou: “Sei que a Vale fez tudo isso em Itabira!”
 
Anotei e fui buscar respostas em Cecília Maria Viana Camilo de Oliveira, que cita Maria das Graças de Souza e Silva em “A Terceira Itabira”: “A estratificação social se mostrava marcante. ‘Os dirigentes, engenheiros e chefes, os doutores da CVRD relacionavam-se de maneira distante e se colocavam como superiores aos demais empregados da mineradora.’” (SILVA, 2004, p.65 apud OLIVEIRA, 2008, p. 86).
 
Tenho eu como testemunha e muitos outros ex-colegas o incrível registro na memória sobre o seguinte: quando um engenheiro-chefe (e todos eram chefes) deixavam escapar um “bom dia”, mesmo mixo, depois de afastarem-se havia sempre um cochicho mais ou menos assim: “Hoje vai chover!” E aí daquele que tivesse a coragem de bradar uma saudação qualquer a um desses superiores! Com certeza ficaria corado de vergonha pelo desprezo. Bem, isto foi normal nos velhos tempo da CVRD.
 
A citada autora Maria das Graças de Souza e Silva também reafirma: “Um dos processos desenvolvidos em Itabira após a instalação da CVRD é o da segregação espacial”, embora reafirme, no mesmo tópico: “Entretanto, nos últimos anos, esse processo sofreu mudanças que acompanharam as transformações econômicas ocorridas na cidade.” (SILVA, 2004, p. 208).
 
SEGUNDA REVELAÇÃO
 
Recebi uma sintética mensagem em que o destinatário faz a seguinte arguição, simples e seca: “O que o senhor sabe sobre as desapropriações depois as compras de imóveis pela Vale em Itabira?” Respondi-lhe que pesquisaria sobre o assunto e não demorei a chegar no seguinte:
 
A literatura sobre segregação em Itabira, promovida pela velha Vale do Rio Doce, é rica e detalhada. Ana Gabriela Chaves Ferreira, em sua dissertação a quem recorro sempre neste trabalho, refere-se ao tema espacial: “Pelo Decreto Expropriatório de 29/06/1975, a Vale desapropriou os moradores dos bairros: Vila Sagrado Coração de Jesus (Explosivo) sem que moradores pudessem oferecer resistência, pois residiam em moradias cedidas pela mineradora. Todas as casas e a escola primária foram destruídas para dar lugar à implantação da usina Cauê. Na década de 1980, foram extintas a Vila Cento e Cinco, o Aglomerado da Camarinha, e Vila Paciência de Cima, sendo destruídas as casas, os armazéns, as escolas, as igrejas e as praças para dar lugar à expansão da mina Chacrinha e Mina do Meio. Na década de 1990, foi extinta a última vila operária, Conceição de Cima, assim como nas outras desapropriações tudo fora destruído para atender o projeto de expansão da mina, desta vez da Conceição.” (SOUZA, 47-51 apud FERREIRA, 2015, p.74-75).
 
“Os expropriados se dirigiram para os bairros formados pelos excluídos da mineração e outras áreas da cidade, forçando a urbanização de novos bairros. Ao todo, foram urbanizados vinte e dois bairros, entre eles Pedreira, Gabiroba, Santa Ruth, Água Fresca, Colina da Praia, Clóvis Alvim.” (FERREIRA, 2015, p.75). Na década de 1990, foi construído, pela Prefeitura, o Bairro Fênix, para alocar os moradores da extinta Vila Conceição de Cima.” (FERREIRA, 2015, p.75).
 
Para mostrar uma, ou duas faces das desapropriações, informa Ana Gabriela Chaves Ferreira que “na dissertação de Souza, apresentada em 2003, afirma-se que uma viúva resistiu à desapropriação e manteve-se como única moradora da extinta vila. O fornecimento de água de sua casa vinha de uma mangueira ligada às instalações da mina, para evitar que a mangueira estourasse foi orientada a manter as torneiras abertas, pois não havia registro de água. O fluxo contínuo de água provocava pingueiras no telhado e alagamento no terreiro abaixo da casa. Por vezes a água chegava suja, quando a viúva reclamava; três dias depois a água ficava limpa, mas depois tornava a ficar suja. A senhora relatou também que temia a proliferação de pernilongos da dengue, o aparecimento de cobras, pois o restante da vila tornou-se um matagal, e que todos estes constrangimentos se tratavam de pressão para que ela deixasse a casa. Conforme Souza, a viúva se recusava a sair porque as condições da casa no Bairro Fênix eram inferiores.” (SOUZA, 2003, p.51-52 apud FERREIRA, 2015, p.75-76).
 
Também este autor (eu) tem o direito de narrar um fato relativo ao que foi mostrado por Ana Gabriela. Em 1976, trabalhava na Assessoria de Comunicação Social, quando fui orientado pelo chefe do setor, Fernando José Gonçalves, que cumpria ordens do então presidente da Vale Fernando Antônio Roquette Reis, a comparecer na Vila Paciência de Cima, onde também uma viúva, esta com cinco filhos, resistia à desapropriação por não ter para aonde ir. Tratores e caminhões da mineradora “roncavam” na área, mesmo diante de um aglomerado de curiosos, e destruíam a horta, o jardim, o pomar, cortaram as ligações de água, energia elétrica e, por fim, deixaram uma escadaria da residência pendurada, sem que a moradora e seus filhos pudessem sair. Compareci ao local, conversei com um operador de máquinas de cara fechada, que não me atendeu no pedido de “parar com aquela balbúrdia”, retornei ao escritório, Fernando Gonçalves falou com a assessoria do presidente, que mandou a seguinte ordem final, via telex, para a Superintendência das Minas: “Religar as redes destruídas urgentemente, consertar o que foi estragadi e enviar a assistente social  para negociar com a viúva”. A assistente social era Maria Hallac Martins da Costa.  Assim foi feito, em menos de três meses a heroína resistente da Vila Paciência de Cima, assim como a sua similar da Conceição de Cima, recebeu uma moradia  para viver em estado mais digno.
 
TERCEIRA REVELAÇÃO
 
Recebi uma sintética mensagem em que o destinatário faz a seguinte arguição, simples e seca,  ainda sobre segregação: “O que o senhor sabe sobre racismo ou outro tipo de preconceito, ou “apartheid”, na empresa?” Respondi-lhe que pesquisaria sobre o assunto e não demorei a chegar ao seguinte:
 
“No município passou a existir uma clara distinção entre a população que trabalhava na Vale e os que não exerciam cargos na empresa. A política adotada pela Companhia em relação à cidade e a população foi de responsabilizar-se, em parte, pelos serviços de saúde, educação, alimentação e habitação. Entretanto, despreparada para a expansão urbana, a cidade centenária não teve condições de planejar seu próprio crescimento que se deu desordenadamente em função do crescimento da CVRD.” (OLIVEIRA, C. 1992, p. 46 apud FERREIRA, 2015, p.96).
 
De volta a mim, ao chegar a Itabira para trabalhar na Vale, admitido em 29 de maio de 1966, dias depois procurei a sede do Valeriodoce Esporte Clube (entidade fundada por empregados da empresa, que funcionava dentro da própria CVRD — abordaremos o tema Valério em outro capítulo), para associar-me ao clube. Fui aceito imediatamente, apresentei os documentos, com fotos e já podia frequentar as dependências do clube,  no Bairro Campestre. As mensalidades eram descontadas em folha, problema nenhum. 
 
Alguns dias depois, queria um pouco mais: desejava frequentar as horas dançantes dos sábados, os bailes periódicos e, principalmente, brincar no carnaval na outra sede, do Bairro Pará. Descobri, no entanto, uma barreira: precisava obter a “carteira categoria especial”. Para consegui-la  teria que passar por uma peneira  fina, que seria o respaldo da diretoria. Procurei  meu único “padrinho”, o mesmo que me convidara a prestar concurso na empresa, e ele imediatamente assinou um requerimento. Enquanto aguardava a resposta — se conseguiria ser “sócio especial do VEC” — ouvi esta resposta: “É provável que você consiga porque não é negro e  ainda tem um padrinho”. Consegui, finalmente, mas recebi  uma orientação: “Cuidado, seja bem-procedido, não tente sequer namorar as filhas dos chefes!”
 
ANÁLISE
 
O que está narrado neste capítulo sobre segregação é uma parte dos enfrentamentos vividos por funcionários da CVRD e não são o todo desse tipo de dificuldades, é claro, enfrentadas por funcionários da empresa, além de outros que moravam em Itabira. Tal situação rendia, sim, reflexos na cidade, criava uma mesma situação difícil para os não empregados da empresa  moradores da cidade.  Ainda chegaremos no capítulo separação de cidadão da Vale x cidadão comum.  Aí, a segregação era dentro da comunidade, embora tivesse o nascedouro dentro da CVRD.
 
CONCLUSÃO
 
Se utilizássemos uma conversa com cidadãos da época – a Vale chegando a Itabira e dando os primeiros passos – eles não teriam ideia do que fosse segregação, “apartheid”, isolamento e outras situações que eram provocadas na  época. Esses, como todos os homens de todos os tempos, se viam vivendo na época contemporânea.  A mesma situação se dá no estudo das idades, Antiga ou Média, por um estudioso historiador. 
 
“Ver a Idade Média com os olhos da Idade Média”. Quantas vezes ouvi de um professor, em sala de aula, tal frase? Incontáveis vezes, posso responder. Agora, que se analisam determinados comportamentos, nota-se a diferença de época, de ocasião, de costumes. Transportando o momento de Itabira – anos 1970-1980 – para hoje, faríamos uma comparação como Idade Média aquele período. Da mesma forma, há bem pouco, até historiadores chamavam a Idade Média como Idade das Trevas,  por ser vista como um tempo de barbárie, ignorância e superstição. 
 
Já no século XX, os olhos sobre o período distante  foram mudados. Por isso chamamos esse período da época da CVRD, embora um tanto quanto recente, de uma Idade Média, como uma metáfora. Está aí uma defesa que faço da Companhia Vale do Rio Doce sobre alguns comportamentos de sua chefia registrados dentro do espaço do próprio espaço de trabalho.
 
No entanto, quanto à segregação espacial, ainda ficam questionamentos: será que o motivo era o fato de a empresa ser estatal? E como ficam aqueles que defendem que a empresa devesse ser sempre do governo, gerido por ele? A segregação social  pode se encaixar nesse parâmetro, mas a espacial se discute. Arrancar bairros como se fossem  pedaços de nossos quintais – e eram locais de moradias de funcionários da Vale – jamais haveria uma explicação convincente. Vamos, daqui a alguns passos, chegar a outra notável sensação de desprezo da empresa pela cidade: INVASÃO.
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
BASTOS, Elaine Viza. Itabira e a Companhia Vale do Rio Doce: interações e identidade no tempo da modernidade. Belo Horizonte: Artigo de pós-graduação: PUC/Minas, 2008,120 p.
 
BASTOS, Elaine Viza. Itabira e a Companhia Vale do Rio Doce: interações e identidade no tempo da modernidade. Belo Horizonte: Artigo de Pós-Graduação em Ciências Sociais, 2008, 120 p.
 
FERREIRA, Ana Gabriela Chaves. Mineração em serra tanto bate até que seca - A presença da Vale em Itabira para além do desenvolvimento dos conflitos ambientais.  Belo Horizonte: Monografia, 2015, 134 p.
 
MINAYO, Maria Cecília  de Souza. Os homens de ferro: estudo sobre trabalhadores da Vale do Rio Doce em Itabira. Rio de Janeiro: Dois Pontos, 1986, 244 p.
MINAYO, Maria Cecília  de Souza.  De ferro e flexíveis. Rio de Janeiro: Garamond,  2004, 460 p.
 
OLIVEIRA, Cecília Maria Viana Camilo de. O Espaço Urbano Itabirano: práticas sócio-culturais e identidade no contexto da implantação da Companhia Vale do Rio Doce. Belo Horizonte: Artigo de Pós-Graduação em Ciências Sociais, 2008, 146 p.
 
SILVA, Maria das Graças Souza  e.  A Terceira Itabira. São Paulo: Editora Hucitec, 2004, 256 p.
 
SOUZA, Maria do Rosário Guimarães de. Da Paciência à resistência: conflitos entre atores sociais, espaço urbano e espaço de mineração. São Paulo: Aderaldo & Rothschild Editores, 2007, 176 p.
 
José Sana
 
Fotos: Arquivo da CVRD e Museu de Itabira
 
Legendas:

 

 

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