Notícia Seca prefeitura
HUMOR DOCUMENTÁRIO CRÔNICAS CULTURA GERAL JORNAL DE PREÇOS VÍDEOS MEIO AMBIENTE CIDADES ECONOMIA EDUCAÇÃO SAÚDE
Boa tarde - Itabira, domingo, 15 de setembro de 2019   NOTÍCIA SECA CONTATO

DOCUMENTÁRIO  
CAPÍTULO 6º: EXPLICAÇÕES SOBRE A INÉRCIA ITABIRANA
Respostas atrasadas a Danielle Mitterrand 04/08/2018

O parênteses continua aberto. No capítulo anterior, reeditei a entrevista feita com  a ex-primeira-dama da França Danielle Mitterrand (1924-2011) em 16 e 17 de novembro de 2006. Ela esteve na região de Itabira, sobrevoou até Conceição do Mato Dentro, observando toda a extensão da Serra do Espinhaço. A nobre visita estava cuidando especificamente da Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço, que teve apoio irrestrito de sua ONG francesa, Fundation France Liberté. A resposta demorou a sair, mas agora faço a publicação para fortalecer o seu e o nosso alerta aos moradores das regiões citadas. Mitterrand, infelizmente, não está no meio de nós, a não ser pelas lições que ela deixou registradas.
 
CRATERAS E PREGUIÇA
 
A primeira pergunta: Danielle, ao se mostrar chocada com a passividade do itabirano — “Vi buracos, imensas crateras e não posso compreender como aquela população de cem mil almas consegue viver calmamente entre tantos problemas” — teve razão em sua afirmativa?
 
Os buracos, ou melhor, as crateras lunares, são verdadeiras, são impressionantes, talvez não conhecidas pela maioria dos habitantes de Itabira. A observação dela pode ser confirmada em uma nota publicada por Maria do Rosário Guimarães de Souza em “Da Paciência à Resistência”: “Vista do alto, Itabira mais parece uma série de ‘minas’ a céu aberto, com algumas casas dentro. Esse câncer que atingiu a nossa cidade vai deixar três crateras na superfície de suas terras, as águas podres e ácidas, o clima aleatório e fétido e alguns milhares de indivíduos tentando reviver o que poderíamos chamar de ‘prostituta do capitalismo selvagem’ (Fernando Duarte Gonçalves apud SOUZA, 2007, p. 47).
 
Complementando a observação da ex-primeira-dama francesa, anotamos outras falas, como: “Em qualquer cidade do interior, a primeira coisa que um viajante vê quando chega é a torre da igreja. Aqui é a mina” (CRUZ, 1985, apud SOUZA, 2007, p.68).
 
Para explicar a passividade da gente de Itabira, recorremos a um levantamento  feito por Maria Cecília de Souza Minayo: “Como se pode depreender  de diversos depoimentos dos trabalhadores, Itabira, na visão deles, ‘é coisa de itabiranos’, dos quais eles se excluem”. “Os filhos desta cidade são preguiçosos, sem iniciativa”. “Isso aqui vai voltar ao que era porque os itabiranos não se interessam, não têm garra”. (MINAYO, 1986, p.125). Da constatação de preguiça e falta de interesse coletivo, deduz-se que a tradição negativa  passa a perseguir o nascido na terra de Drummond pela vida afora. Aí, recorro a uma entrevista feita em 2003, na Acita, logo após o diretor Viveiros, da Vale, anunciar a perenidade das minas até 2075 no mínimo: “O povo de Itabira tem talvez mais um século para encontrar o seu rumo, nós não vamos ver esse dia, mas será verdade que ainda estará de braços cruzados esperando as bênçãos dos céus” (DeFato Online, 25/05/2003) dando sequência à matéria anotada no dia anterior e publicada nas páginas 28 e 29, edição 126, de junho/2003, DeFato, “A derrota do fantasma”). 
 
 
O QUE  ESTARIA OCORRENDO EM  ITABIRA?
 
Segunda colocação a respeito de Itabira: “A mineração não pode continuar com tanta fúria. Os gananciosos tentam tirar o máximo, num menor tempo possível, para que tudo gere o lucro maior que puder. Esta é uma corrida maluca e inexplicável do capitalismo atual.” — Há explicações para esta colocação? Acrescentou mais sobre a vida itabirana: “As empresas não medem esforços para destruir, como vi na região de Itabira".
 
Recorrendo a Núbia Maria Dias da Cunha, encontramos em sua dissertação de mestrado em Políticas Públicas “Trabalho Voluntário e a Responsabilidade Social Empresarial: a expropriação do tempo livre como uma estratégia de envolvimento cooptado do trabalhador”  (CUNHA, 2007). Seria esta a receita não praticada ou interrompida em Itabira a esta altura do século 21? Provável. Vamos ver mais adiante.
 
Como vereador em Itabira (1973-1982), não só presenciei como também trabalhei nesses propósitos de fortalecer a sociedade organizada para não só reivindicar como também colaborar, trabalhar, participar ativamente de um processo de unificação de ideias e pensamentos no sentido de compreender e ser solidário. A iniciativa a que me dediquei foi um trabalho denominado pelo próprio povo de Plano Funil, isto é um modelo político que dá ao povo o poder de ser poder com responsabilidade. 
 
Pleiteando o título de Mestre em Administração Pública, o professor da Funcesi, Itabira, José Carlos Fernandes Lima, apresentou a dissertação à Fundação João Pinheiro, em junho/2002, o tema “A sociedade civil de Itabira na década de 90 e a democratização do poder local: avanços e dificuldades”. Em seu trabalho, LIMA mostra que, implicitamente, a comunidade partia para decisões em alto estilo, juntando-se ou até mesmo superando as expectativas em capacidade. 
 
Então, por que a mineração continuou afrontando a inteligência dessa gente? Apresenta-se clara a resposta: o espírito comunitário do itabirano apagou-se aos poucos tão logo as entidades passaram a ser subvencionadas pelo poder público. Restaram outras entidades, como sindicatos e clubes de serviço, cada uma voltada para o seu grupo de trabalho, fora das soluções políticas. Voltaremos ao assunto mais na frente. 
 
AGUA EM ITABIRA: UM CASO DE POLÍCIA
 
Terceira colocação da ex-primeira-dama da França: “Os relatos que ouvi sobre a água me deixaram preocupada. Não se pode viver fazendo pouco caso de um bem tão precioso. Enquanto outros países, com os erros cometidos contra a natureza servindo como exemplo, tomam medidas para que se evite uma guerra violenta no futuro, aqui no Brasil e mais especificamente nesta região, ou na cidade mencionada, Itabira, a água desce a níveis impensados, apenas para satisfazer a ganância descabida de um projeto que leva apenas ao fim, à destruição.” — tem razão Danielle Mitterrand?
 
Mais que razão. Itabira é uma bacia de água que cerca a mineração e todos sabem disso. Mas a sua captação se tornou cada vez mais difícil por causa do rebaixamento do lençol freático. Uma pergunta: a Vale cumpre religiosamente com os seus deveres relativos às condicionantes da Licença Operacional Corretiva (LOC)? Itabira tem água e não tem água? Ou seja, o custo de captação e distribuição são tecnicamente caros e deveriam ser pagos por quem tem a responsabilidade do rebaixamento citado.
 
Um absurdo: faz anos  o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) nega ligações em padrões hídricos para pequenas e médias empresas que pretendiam ou pretendem instalar-se em Itabira. Como pleitear uma grande indústria sem o necessário abastecimento em excesso de volume, como Itabira merece, considerando que água há, disponível mas custosa.
 
Agora, o crime verdadeiro, seja de quem é a culpa — Prefeitura ou Vale ou Ministério Público ou comunidade  — está sintetizado ao não cumprimento das condicionantes da Licença Operacional Corretiva (LOC). A principal pendência em relação ao abastecimento público de água (não citando as outras, no entendimento dos profissionais da área técnica da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, é em relação às “ações de médio e longo prazo” - condicionante 12A. Ei-la:
 
“12 A) As ações de médio e longo prazo deverão ser contempladas no cronograma a ser apresentado à Feam até 28/02/2001, observando-se os prazos para firmar Termo de Compromisso com a PMI até 09/06/2000 e assinatura de Termo de Convênio até 30/07/2000.” E eis o crime: há 18 anos o cumprimento da condicionante 12A está por realizar-se. Ficam as perguntas: a primeira, em atenção ao questionamento feito por Danielle Mitterrand, Itabira está dormindo em berço seco; a segunda, aos negociadores do futuro com a Vale: como implantar indústria numa cidade sugada pela mineração? Estarrecedor: ainda pensam em ver se prolongam a atividade mineradora, ao invés de, primeiramente, negociarem o bem indispensável à vida sob todos os aspectos, até mesmo das atividades empreendedoras. Pré-conclusão: a questão da água pode ser denunciada à polícia. Alô, Ministério Público!
 
A respeito de problemas mineiros de modo geral, releiam o que disse ela: “Aqui na região de Conceição do Mato Dentro a queima de madeira nativa mostra inconsequências  terríveis. Falam hoje no risco de desenvolvimento nuclear na Coreia do Norte. A verdadeira bomba atômica está sendo preparada em Minas Gerais, nesta terra linda e adorável, fato que temos a responsabilidade de evitar.”
 
Aí está um problema que ninguém consegue deter, vem de longa data, há muitas denúncias mas nada se faz para coibir o abuso. Uma pergunta que não pode ferir ninguém: por que as autoridades responsáveis não fazem uma revista periódica nas regiões de matas nativas tal como fez Madame Mitterrand em apenas um dia? Com certeza ficariam sensibilizados e tomariam providências.
 
MÃE D’ÁGUA, ELOGIO INTERNACIONAL
 
Mas a visitante elogiou uma iniciativa que estava caminhando a todo vapor em Itabira: o Projeto Mãe D’Água:  O nome e as suas características me chamaram a atenção. “Fui informada de que se trata de um plano para proteger o percurso da água a partir de uma nascente e um manancial. É preciso que mais mães d’águas se multipliquem não só em Itabira, mas também em outros lugares, porque a vida é a água e temos muita condição de torná-la perene.”
 
Mãe D’Água é um projeto simples mas profundo, tão bem elaborado que saiu pelo Brasil afora ganhando prêmios ambientais. Foi instituído pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto, em agosto de 2006 e fez sucesso também com os produtores rurais que o apoiaram. Consiste em proteger as nascentes e o curso da água em toda a sua extensão. A experiência itabirana foi feita no Mãe D’Água, um dos afluentes do Córrego Candidópolis, tomando todos os cuidados para evitar a poluição e zelando pelas matas ciliares. Infelizmente, em 2016 foi interrompido o trabalho que deu certo sob a desculpa de falta de recursos. Era a crise que ocorreu em Itabira na mudança de governos. Mas com novos recursos de receita sendo depositados nas contas da Municipalidade de Itabira, espera-se a sua reativação, até porque não consume tantos recursos como se poderia pensar.
 
ANÁLISE
 
Madamme Mitterrand compreenderia muito bem o porquê a população itabirana, agora de 119 mil seres humanos, aceita passivamente que tanto buraco e outras ameaças avancem sobre Itabira. Vamos, inicialmente, ao mestre José Carlos Fernandes de Lima, em sua dissertação de mestrado (2002): “Na paisagem local (Itabira), os traços das mudanças são perceptíveis. O ‘imbricamento’ da mina com a cidade recortada pelas jazidas manifesta-se através dos possantes equipamentos industriais, à vista de qualquer observador. As partículas de poeira ferruginosa suspensas no ar, grudadas às árvores e às paredes das casas; as detonações cotidianas que progressivamente derrubam as montanhas de minério; paredes de moradias rachadas em função de dinamitagem; deslocamento de bairros inteiros para dar lugar ao avanço da exploração mineral e os uniformes beges dos funcionários da CVRD evidenciam uma Itabira marcada pelas ações da empresa.” (LIMA, 2002, p.16).
 
O mesmo professor ainda escreveu: “Pode-se dizer que a dominação da empresa sobre Itabira parte de uma hegemonia e se projeta na totalidade da vida social. A dominação aqui se exerce através da cumplicidade na relação dominador-dominado, pela qual o capital econômico reconverte-se em capital simbólico, sob o véu de obrigações morais e de direito.” (LIMA, 2002, p.17).
 
Em outro ângulo pode-se analisar da seguinte forma, adotando o olhar de Maria do Rosário Guimarães de Souza: “Como um garimpo, o arraial tinha o aspecto de acampamento, com cabanas edificadas às margens dos córregos, mais ou menos próximas à capela e às casas comerciais” (SOUZA, 2007, p.36).
 
“A Vale do Rio Doce é um grande garimpo”, disse Sebastião Carlos de Oliveira Andrade em palestra realizada na Câmara Municipal de Itabira, em 1976, com registro de sua presença em ata.
 
Ora, um garimpo se efetiva em acampamentos e acampamentos são montados o mais próximos possível da área de operação, a mineração. O que Danielle Mitterrand viu do alto do helicóptero que a atendia naquele 16 de novembro de 2006, era um acampamento que, todavia, não exime o itabirano de culpa por aceitar passivamente a situação imposta pela mineradora.
 
CONCLUSÃO
 
Vamos fechar este sexto capítulo, aberto por questão de discussões momentâneas e voltar aos tempos que registraram os acontecimentos anotados por autores especialistas, a imprensa e mesmo os olhares deste que faz as anotações. Ao concluir, é preciso dizer, por etapas:
 
— Não se deve postergar o momento decisivo de reconstruir uma nova Itabira. A própria Vale, por meio de seu diretor Viveiros, afirmara, em 22 de maio de 2003, ao anunciar a continuidade de atividades minerárias em Itabira até, pelo menos, 2075, que a notícia não poderia interromper a busca da diversificação econômica.
 
— Reconheçam os políticos, que possuem mandatos curtos diante de ações que são ou precisam ser infinitas: esses podem ser condutores do processo em discussão sobre o que fazer Itabira daqui para a frente, como negociar com a Vale, mas a comunidade tem que ser ouvida, chamada, tem que opinar. É preciso constituir um mecanismo para que as vozes itabiranas sejam juntadas, filtradas, concluídas num resumo inteligente. Assim não haverá forma de prejuízos ou, num futuro próximo, que não apareça alguém para reclamar e dizer; “Não tenho nada com isso!”
 
— Além de chamar o fator comunidade para sentar-se à  mesa com os poderes constituídos, a Prefeitura deve cuidar de contratar especialistas, verdadeiros profissionais, para que concluam as decisões dos filhos de Itabira e não seja permitido que amadores se apresentem como finalizadores das negociações.
 
— Que exemplos como este: as palavras de personalidades que enfrentam ou enfrentaram a questão ambiental em vários países, como é o caso de Danielle Mitterrand, sejam pesados na balança das discussões.
 
Está fechado o parênteses e voltamos no próximo capítulo às dívidas e deveres. Que fique claro: existe solução para a inércia. Falei...
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
CUNHA, Núbia Maria Dias da.  Trabalho Voluntário e a Responsabilidade Social Empresarial: a expropriação do tempo livre como uma estratégia de envolvimento cooptado do trabalhador. São Luís: Dissertação de Mestrado em Políticas Públicas, 2007, 172 f.
 
LIMA, José Carlos Fernandes de. A sociedade civil de Itabira na década de 90 e a democratização do poder local: avanços e dificuldades. Belo Horizonte: Dissertação de Mestrado, 2002, 124 p.
 
MINAYO, Maria Cecília  de Souza. Os homens de ferro: estudo sobre trabalhadores da Vale do Rio Doce em Itabira. Rio de Janeiro: Dois Pontos, 1986, 244 p.
 
MINAYO, Maria Cecília  de Souza.  De ferro e flexíveis. Rio de Janeiro: Garamond,  2004, 460 p.
 
OLIVEIRA, Cecília Maria Viana Camilo de. Itabira: Desenvolvimento e Dependência. Itabira: Gráfica Dom Bosco, 1992, 72 p.
 
Revista DeFato. Edição 126, junho/2003.
 
Revista DeFato, Edição 165, setembro/2006, Itabira, MG.
 
SILVA, Maria das Graças Souza  e.  A Terceira Itabira. São Paulo: Editora Hucitec, 2004, 256 p.
 
SOUZA, Maria do Rosário Guimarães de. Da Paciência à resistência: conflitos entre atores sociais, espaço urbano e espaço de mineração. São Paulo: Aderaldo & Rothschild Editores, 2007, 176 p.
 
José Sana
Em 04/08/2018
Fotos: Arquivo

 

 

graficavipitabira
 
INFORMAÇÃO DE QUALIDADE! E-mail: contato@noticiaseca.com.br
Notícia Seca 2019. Todos os Direitos Reservados.

Desenvolvedor: SITE OURO