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Boa tarde - Itabira, domingo, 15 de setembro de 2019   NOTÍCIA SECA CONTATO

DOCUMENTÁRIO  
CAPÍTULO 5º - DA FRANÇA PARA ITABIRA: "ACORDE!"
Faz 12 anos Danielle Mitterrand fez alerta 29/07/2018

Estou reabrindo o parênteses deste DOCUMENTÁRIO-HISTÓRICO, emendando como o anterior,  para introduzir uma figura mundial que passou por Itabira em 16 de novembro de 2006, deixou um recado, propus a ela uma entrevista, topou, e saí em desabalada carreira atrás dela, que seguia de helicóptero e eu de Fiat Uno, até a zona rural de Conceição do Mato Dentro. Consegui entrevistá-la na calada da noite, num espaço rural sem energia elétrica, como ela exigira. 
No meio deste início de trabalho no capítulo 5º, achei por bem tornar a entrevista daquela data parte desta empreitada. A ideia veio de uma pessoa muito mestre ou doutor para dizer o seguinte: “A entrevista com Danielle Mitterrand de 12 anos atrás continua atual”.
Resolvi reeditá-la e como capítulo deste documentário: 
 
A primeira-dama mundial do meio ambiente
 
 
Viúva do ex-presidente François Mitterrand mostra indignação com a destruição ecológica no Espinhaço e pede participação de todos na defesa de bens naturais
 
O que fazer e o que ter para entrevistas uma celebridade como Danielle Mitterrand? Estrela? Oportunismo? Perspicácia? A resposta é simplesmente esta: persistência. Durante dois dias, trabalho iniciado em 16 de novembro, em Itabira, e, completado no dia seguinte, na zona rural de Conceição do Mato Dentro, qualquer tipo de obstáculo pode ser colocado no caminho, a começar pela estrada precária para a localidade de Peixe Tolo, onde a ex-primeira-dama francesa se hospedou. Mas a sua permanência em algum lugar era por tempo limitado, de vez que cumpria a missão de percorrer, de helicóptero, toda a Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço, criada pela Unesco, em 2005. E estava acompanhada também por uma também por uma equipe de televisão estatal de seu país.
 
Outros empecilhos estavam ligados à importância de sua presença, à idade da guerreira (82 anos) e à excessiva preocupação de seus anfitriões, que a cercavam de cuidados nem sempre respeitados por ela. Quanto ao intérprete que a acompanha há três anos no Brasil, André Abreu, pode ser creditada sua boa vontade ao êxito da empreitada assumida pela revista DeFato.
 
O que leva uma mulher famosa a entregar-se de corpo e alma ao trabalho de uma organização que ajudou a criar e hoje preside, a ONG France Liberté? Por que a luta pelos mais fracos e agora, mais do que nunca, em defesa da água? Com cem projetos pelo mundo, sua organização apoia seis iniciativas no Brasil. Por que o Brasil? Quais seriam as maiores ameaças ao planeta? Todas essas questões e uma longa conversa de duas horas fizeram parte do contato da revista numa casa sem energia elétrica, à beira  de um fogão a lenha (de reflorestamento) e a aquiescência do proprietário, professor Miguel Andrade, da UFMG.
Acompanhe a conversa:
 
José Sana - Por que a senhora se dedica inteiramente à causa da natureza?
Danielle Mitterrand - A Fundação France Liberté, fundada há 20 anos, tem esta função: defender os direitos humanos e a autodeterminação dos povos. Trabalhando sob esta inspiração, chegamos às questões da natureza. Meu marido e eu aprendemos  muito na Resistência Francesa, quando saímos do inferno e desejamos construir a Europa dos povos. A nossa ONG trabalha pela mudança de mentalidade dos governantes, intelectuais, líderes e pela sensibilização dos países ricos. Posso dizer que fiquei na oposição em meu país até 1981, quando da eleição e posse de François. Depois de muita luta, já no poder, não poderia abandonar todo o meu idealismo. É o que o político normalmente faz: ao chegar ao seu cobiçado palácio, esquece tudo. Como não quisesse entrar no Palais de l’Elysée, mas me aproveitar das circunstâncias do poder, criei ONGs. Utilizei  minha posição para que todos ouvissem o discurso dos sem-voz.
 
JS - E esta região tão distante de seu mundo, que importância tem no contexto de seu trabalho?
DM - Tenho um sentimento natural para com o Brasil, uma relação com Minas muito antiga, amizade com Tancredo Neves, que transferi para o seu neto, o governador Aécio Neves, e sempre tive a intuição de que neste país se encontram respostas para as questões que se propõem ao mundo todo. Na verdade, fui trazida pelo meu companheiro de luta, meu intérprete André Abreu, a partir de um projeto desenvolvido em outras regiões. A criação da Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço, pela Unesco, teve o total apoio da France Liberté, Estive nesta região há um ano, quando foi entregue o certificado. Temos o que há de mais belo e saudável na natureza plantado na Serra do Espinhaço, assim como assistimos a uma devastação que precisa parar urgentemente.
 
JS - O que mais tem que parar urgentemente?
DM - A mineração não pode continuar com tanta fúria. Os gananciosos tentam tirar o máximo, num menor tempo possível, para que tudo gere o lucro maior que puder. Esta é uma corrida maluca e inexplicável do capitalismo atual.
 
JS - A senhora se refere à mineração de Itabira, onde esteve por algumas horas?
DM - Sim. Vi buracos, imensas crateras e não posso compreender como aquela população de cem mil almas consegue viver calmamente entre tantos problemas.Os relatos que ouvi sobre a água me deixaram preocupada Não se pode viver fazendo pouco caso de um bem tão precioso. Enquanto outros países, com os erros cometidos contra a natureza servindo como exemplo, tomam medidas para que se evite uma guerra violenta no futuro, aqui no Brasil e mais especificamente nesta região, ou na cidade mencionada, Itabira, a água desce a níveis impensados, apenas para satisfazer a ganância descabida de um projeto que leva apenas ao fim, à destruição. O homem caminha em terrenos desconhecidos e não aproveita as grandes lições que lhe foram impostas no decorrer do tempo. A população itabirana, pelo que senti na narrativa das pessoas, pelo que vi, me parece muito passiva. Ela pode apoiar a atividade mineradora, mas nunca se descuidar de seus passos. Se a mineração traz resultados imediatos em termos financeiros, pode trazer graves problemas a longo prazo. Devo dizer, no entando, que em Itabira tomei conhecimento de iniciativas que merecem o nosso aplauso.
 
JS - O projeto Mãe D’Água é um deles?
DM - Exatamente. O nome e as suas características me chamaram a atenção. Fui informada de que se trata de um plano para proteger o percurso da água a partir de uma nascente e um manancial. É preciso que mais mães d’águas se multipliquem não só em Itabira, mas também em outros lugares, porque a vida é a água e temos muita condição de torná-la perene.
 
JS - Além da mineração, o que mais a impressiona aqui nas questões negativas?
DM - Gosto de falar das coisas positivas e por isso repito que a riqueza natural do Brasil e desta região é inigualável. Mas tudo isso pode acabar, é o alerta que qualquer estudioso e cidadão experiente pode e deve fazer. Além da mineração, há outras agressões ao meio ambiente. Viajanto até essas terras, percebemos o desmatamento. É muito sério isso. As matas nativas de Minas Gerais estão indo embora. Não se pode fazer isso com uma natureza tão perfeita.
 
JS - Vem a mineração para Conceição do Mato Dentro. O que a senhora pensa disso?
DM - Não tenho opinião formada ainda. Os projetos estão sendo montados e é preciso ter muita atenção nesta etapa de trabalho.
 
JS - A senhora traz apoio financeiro para seus projetos sociais?
DM - A fundação que presido não é rica. Ela ajuda a cerca de cem projetos no mundo e traz também apoio logístico e político. A ideia é gerar visibilidade. Ela tem como princípio a luta em favor da\ paz, pela busca da igualdade e da liberdade, ou seja, o seu lema é “liberté e igualité.
 
JS - Para seu marido, esta atitude de partir para uma ONG não era de rebeldia?
DM - Não. François foi quem viabilizou a Fundation France Liberté, pois ele também comungou meus sonhos de justiça e paz e era a bandeira de sua campanha eleitoral. Ele esteve sempre a meu lado em todos os momentos.
 
JS - A senhora vê resultados na atuação de sua fundação no Brasil?
DM - Trabalhamos com parteiras no Amapá. catadores de papel em Belo Horizonte, seringeiros no Acre e com outras iniciativas. Aqui na região, estamos acompanhando os trabalhos de preservação da Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço, que tem a liderança da Sociedade dos Amigos do Tabuleiro e apoio de órgãos públicos locais. Sinto que a ajuda representa alguma coisa significante, mas podemos fazer mais, estamos em sintonia. Trabalhamos na mobilização pela água porque isso envolve toda uma questãoda malha social, da construção desta malha. A preocupação básica é assegurar o direito do uso universal da água para todos os povos como um bem e não como um recurso, o que não tem preço. Daí germinam as outras questões, como a que estamos abordando, a devastação da natureza, que afeta a água e pode nos privar dela.
 
JS - A senhora quer que todos tenham água de graça?
DM - De graça, não. O serviço da água pode ser cobrado, deve ser cobrado, mas proporcionalmente, com a garantia de que nunca faltará a quem não puder pagá-la. E que a mobilização, como já disse, seja estendida a todas as questões, para que todos se engajem na democracia participativa, tomando suas posições, que sejam todos respeitados, que possam falar, ser ouvidos, reivindicar, ser atendidos, tomar consciência, enfim, que a distribuição de direitos e deveres seja equitativa.
 
JS - Gente de outros países se preocupando com problemas brasileiros. Não é ingerência?
DM - Olha, esta minha postura não é postura da Europa, por exemplo, nem da França. Já disse de nossas lutas na Resistência Francesa. A ocupação da França pelo exército alemão, de 1940 a 1944, teve graves consequências para a sociedade francesa. Milhares de compatriotas resolveram colaborar com os invasores; entretanto, um grande número de jovens juntaram-se à resistência. Daí a nossa libertação, a duras penas. Saímos, então, da guerra com experiência, entusiasmo e acreditando, por exemplo, que a democracia seria reinventada na América Latina, mais especificamente na América do Sul pelos povos originários. O que fazemos em todos os países traz como princípio o respeito à liberdade e à origem de cada povo.
 
JS - Qual é a maior ameaça para o mundo, ou a vida: o terrorismo, o aquecimento global ou as guerras que não param de se suceder?
DM - O que me toca mais, o que me deixa mais revoltada, realmente, é a exploração selvagem dos recursos naturais. Aqui em Minas é um exemplo, Itabira é um exemplo, ao longo do Vale do Rio Doce temos exemplos diversificados. Todas as minhas preocupações hoje estão concentradas na mineração, no eucalipto, e tudo leva à defesa da água como um bem a que todos têm direito, universalmente. Porque contra esses problemas podemos lutar. Não podemos nos opor ao terrorismo, mas temos que ser contra as suas causas. Por que existe o terrorismo? Porque não existe respeito aos povos. Se cada um se recolher ao seu espaço, se houver autodeterminação reinando como lei inviolável em cada país, não haverá terrorismo. Já o aquecimento global, as causas mais avançadas estão ligadas, principalmente, à ganância desenfreada, que precisa ser combatida de outra forma, aplicando-se os princípios da busca da paz, do amor, da compreensão, do respeito. Portanto, estou preocupada, e muito, com a queima da madeira aqui na região para se fazer o carvão, de que se faz o ferro e o aço. E com a mineração, que também faz mexer com a terra, tira a água, cuja falta é a causa do aquecimento global e da guerra.
 
JS - A senhora quer o homem cruze os braços e deixe a natureza como está?
DM - Não é isso. Somos contra a paralisia, temos que sobreviver. O que a nossa fundação prega é a exploração seja, realmente, auto-sustentável, não apenas no papel, no discurso, mas na realidade, fruto de conscientização e responsabilidade. As empresas não medem esforços para destruir, como vi na região de Itabira. Aqui na região de Conceição do Mato Dentro a queima de madeira nativa mostra inconsequências terríveis. Falam hoje no risco de desenvolvimento nuclear na Coreia do Norte. A verdadeira bomba atômica está sendo preparada em Minas Gerais, nesta terra linda e adorável, fato que temos a responsabilidade de evitar.
 
JS - Desculpe-me esta pergunta: com o coração assim voltado para os mais fracos, na preocupação de dar muito de si ao próximo, que religião a senhora pratica?
DM - Sou atéia.
 
JS - Atéia? A senhora não acredita em Deus?
DM - Acredito, sim. Deus é fruto do imaginário de cada um, as Ele existe. Cada pessoa tem a sua concepção. Penso no espírito, penso no existir eternamente, penso numa outra vida que deve existir, acredito nela com toda a minha convicção. É por causa disso que estou aqui, que viajo, enfrento adversidades e um mundo de grandes obstáculos. Dos mais de seis bilhões de pessoas no mundo, somente um bilhão tem qualidade de vida. Há setores da sociedade que não se preocupavam, mas agora se preocupam com isso. Muita mudança foi fruto do trabalho da Fundation France Liberté.
 
Não fecho o parênteses. É preciso ou dar resposta, ou explicar, as declarações públicas de Danielle Mitterrand. Análise e Conclusão virão no Capítulo 6º.
 
NOTA - Voltei a falar com Danielle Mitterrand em 2008 e 2010. Ela faleceu em Paris cinco anos depois desta entrevista, em 22 de novembro de 2011, aos 87 anos de idade..
 
FOTOS - Arquivo
 
José Sana
29/07/2018

 

 

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