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Boa tarde - Itabira, domingo, 15 de setembro de 2019   NOTÍCIA SECA CONTATO

DOCUMENTÁRIO  
CAPÍTULO 4º: HORA DE ACABAR COM O "JÁ TEVE"
Itabira precisa resgatar valores materiais e humanos 26/07/2018

Abro um parênteses, ou melhor, um capítulo, para tentar fazer justiça com o que ainda não foi feito. Para explicar, apelo para enumerar os feitos, fatos e personagens que ainda não tiveram o devido reconhecimento do itabirano: 
 
Pico do Cauê — A ele já dediquei um capítulo inteiro, o primeiro desta série. O itabirano não se ligou à sua importância e não deu a ele o valor que tinha.
Instituto Agronômico — Uma escola púbica estadual, profissionalizante, que chegou a Itabira, instalou-se, funcionou durante quatro anos, mas não lhe deram o devido valor. Já abordamos este item.
 
Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) — Falha  fatal no decorrer da vida itabirana, principalmente do governo da Província, que não soube trazê-la para Minas Gerais, especificamente para Itabira, a dona natural e legítima do Cauê. Enfraqueceram-se as forças para brigar contra a ditadura Vargas. Então, a CSN foi direcionada para Volta Redonda, por puro clientelismo: um genro de Getúlio, Amaral Peixoto foi desapropriado. Na cidade do Estado do Rio de Janeiro transformou-se na maior siderúrgica brasileira; (VAZ, 1996, p. 168). Também nos referimos a esta questão em capítulo anterior.
 
Estrada de ferro Itabira a Belo Horizonte — A obra teve 60% de execução prontos com gastos estimados em um milhão de dólares (edição 177, de setembro/2007 à edição 184 de abril/2008), com túneis (um desencontrado), trincheiras,  bueiros e outras estruturas prontas. As obras, iniciadas em 1953, foram abandonadas pelo governo federal, em 1956. O Brasil desistiu dos trens e  optou  pelas rodovias, isto é, na contramão dos países de primeiro mundo.
 
Estrada de Ferro Vitória-Minas — O empreendimento aí está, funcionando, mas transporta pessoal (por ramal até Nova Era) e minério de ferro. Um dia foi “Porto Seco”, ou seja, transportava mercadorias para exportação. A Vale impôs o seu monopólio desde o tempo de estatal (Revista DeFato, edições de 2001).
 
Aeroporto — Até a década de 1970 existia no topo do Bairro Campestre, onde hoje é um depósito de materiais sobre pilhas de rejeito de minério de ferro. Era utilizado também pela comunidade, por empresários. Um dia, à sua mercê e interesse, a velha Companhia Vale do Rio Doce o desativou para sempre. Prometeu construir outro e até o momento não cumpriu essa  promessa. Em 1993, cogitou-se de implantar uma fábrica de aviões em Itabira para reparar a falta do aeroporto fechado sorrateiramente pela CVRD. A mesma Vale não aceitou a proposta da Agência de Desenvolvimento de Itabira e encerrou o assunto (Itabira e Centro-Leste em Revista, setembro/1993, páginas 26 a 28).
 
João Camilo de Oliveira Torres — Nascido em Itabira em 31 de julho de 1915, faleceu em Belo Horizonte em 31 de janeiro de 1973. Escritor, professor, historiador e jornalista. Foi professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, da Universidade Federal de Minas Gerais e da Universidade Mineira de Arte, tendo sido membro da Academia Mineira de Letras, do Instituto Mineiro de Geografia e História, Conselho Mineiro de Cultura. Autor de várias obras sobre temas diferentes, centrados principalmente em política, administração pública e leis. Dentre sua extensa obra, a história das ideias é, sem duvida, sua maior contribuição para a historiografia nacional, tendo obra “A democracia coroada: teoria política do Império do Brasil” recebido os prêmios Joaquim Nabuco, da Academia Brasileira de Letras em 1958 e ainda o prêmio "Cidade de Belo Horizonte" em 1952. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o) Esquecido em sua terra natal, ou lembrado apenas com nome de uma rua, que se inicia na Vila Piedade e segue até o Bairro Praia. Muito pouco para tão nobre figura.
 
Valeriodoce Esporte Clube — “No dia 22 de novembro daquele ano de 1942, um grupo de simpatizantes do esporte resolveu fundar um clube de futebol ao qual deram o nome de Valeriodoce Esporte Clube, nome esse que representa o endereço telegráfico da Companhia. O então presidente da Vale, ao autorizar o funcionamento do clube nas dependências da mesma, determinou que o seu presidente e seu vice-presidente fossem  nomeados pelo superintendente do Departamento das Minas. Sob a proteção e com o irrestrito apoio da CVRD, o Valeriodoce cresceu e tornou-se uma paixão itabirana” (Gonçalves, 2002, p.35).  Em 1992, chegou a Itabira o engenheiro Ricardo Dequech, que assumiu a função de superintendente do Departamento das Minas com a missão principal de preparar a Companhia para a privatização. Ele fez doações de patrimônios que não mais interessavam à empresa, dentre elas as instalações do Valeriodoce Esporte Clube. “Um presente de grego” à sociedade, afirmaram os líderes políticos (Itabira em Revista, edição de abril/1994) . A Vale encenou a transformação do Valério em sociedade anônima, mas foi só encenação. Abandonado, o clube agoniza desde então (Revista DeFato, edições seguidas a partir de 1995 a 1998).   
 
AS TRÊS MARIAS
                                                                                                                                                       
A hora é agora. A Vale anunciou que vai partir, ou quem sabe continue na sua terra natal. Todas as discussões até então mantidas com a Vale (vide, principalmente, as Licenças de Operações Corretivas para minerar). “Itabira não se organizou, não soube se posicionar e, consequentemente, não obteve os resultados positivos que eram esperados” (Um comerciante de peso na cidade). 
 
Mas, agora, tudo pode ser diferente porque resolvi pôr a boca no trombone. O que temos em mãos? Resposta minha e com responsabilidade: temos três eméritas estudiosas,  reconhecidas no âmbito de pesquisas científicas, que nasceram em Rio Piracicaba, Minas Gerais (a cerca de 60 quilômetros de Itabira) e que escolheram ser itabiranas desde a infância. Ainda não devidamente reconhecidas, colocadas de lado, têm seus trabalhos publicados e que podem e devem alicerçar toda e qualquer discussão sem paixão, clientelismo, protecionismo e todos os ismos que poderiam atrapalhar.
 
Ei-las:
 
Maria Cecília de Souza Minayo —  Possui graduação em Sociologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1978), graduação em Ciências Sociais - City University of New York (1979), mestrado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1985) e doutorado em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz (1989). Desde 1997 é editora científica da revista Ciência & Saúde coletiva da Associação Brasileira de Saúde Coletiva e pesquisadora titular da Fundação Oswaldo Cruz. Tem experiência na área de Saúde Pública, com ênfase em Saúde Coletiva, atuando como professora, pesquisadora e orienadora principalmente nos seguintes temas: métodologia de pesquisa social, metodologia da pesquisa social em saúde pública, violência e saúde, causas externas, violência, violência autoinfligida, saúde coletiva e saúde e sociedade. Já oirentou 69 teses e dissertações, publicou 207 artigos científicos publicados, 199 capítulos de livros e 40 livros sendo 7 individualmente e 34 como organizadora e em colaboração. É Editora chefe da Revista Ciência & Saúde Coletiva. É membro do conselho editorial de 14 revistas científicas, sendo 4 estrangeiras e desde 2013 é Editora Regional da Revista Environmental Health Perspectives. Tem vários prêmios por seus méritos na área de saúde dentre eles o de "Medalha de Mérito da Saúde "Oswaldo Cruz" conferido pelo Ministério da Saúde em 2009 e o Prêmio de Direitos Humanos em 2014 conferido pela Presidência da República. É bolsista 1A de produtividade do CNPQ e pesquisadora emérita da FAPERJ (https://www.escavador.com/sobre/1166504/maria-cecilia-de-souza-minayo). 
Maria Cecília de Souza Minayo autora de Homens de Ferro (1986)  e  De Ferro e Flexíveis (2004).
 
Maria do Rosário Guimarães de Souza (Zara) — Possui graduação em Ciências Exatas/Matemática - pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1975); especialização em Ciência do Ambiente e Biologia Geral pela PUC-MG e mestrado em Geografia e Organização Humana do Espaço - pela Universidade Federal de Minas Gerais (2003). Tem experiência na área de Biologia Geral; na área ambiental - gestão ambiental, educação ambiental, sociedade e meio ambiente com ênfase nos temas: sustentabilidade, resíduos sólidos, coleta seletiva, impacto ambiental, poluição ambiental, espaço urbano; em metodologia científica, metodologia científica e tecnológica, metodologia de pesquisa geográfica; em educação - didática geral, didática da ciência; instrumentação para o ensino de ciências, estágio supervisionado; em saúde da comunidade. Autora dos livros - Da Paciência à Resistência: Conflitos entre Atores sociais, Espaço Urbano e Espaço de Mineração; Fachi 40 anos, Funcesi 15 anos: o ensino superior de Itabira tem história. (https://www.escavador.com/sobre/1060021/maria-do-rosario-guimaraes-de-souza). 
 
Maria das Graças Souza e Silva (Baginha) - Possui pós-graduação em Estudos Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1970), graduação em Geografia ela Pontifícia Universidade Católica de MG (1972) e mestrado em Geografia e Organização Humana do Espaço pela Universidade Federal de Minas Gerais (2002). Atualmente é  professora nível superior da Fundação Comunitária de Ensino Superior de Itabira e pesquisadora da Fundação Comunitária de Ensino Superior de Itabira. Tem experiência na área de Geografia, com ênfase em Geografia Urbana, atuando principalmente nos seguintes temas: Itabira-mineração-transformações- espaço urbano, Itabira-vulnerabilidade-socioeconomia-politica, impactos e riscos socioambientais - espaço urbano - mineração. (https://www.escavador.com/sobre/2610688/maria-das-gracas-souza-e-silva). 
Em nosso foco deste momento importante da vida de Itabira, destacamos sua obra A Terceira Itabira (2004).
 
ANÁLISE
 
Fatos que ocorreram e que não podem se repetir. Morosidade ou mesmo omissão itabirana em doses elevadas foram mostradas. Dívidas contraídas pela Vale, incontestáveis. Tudo isso até chegar, detalhe por detalhe, às Três Marias, que aí estão desde a década de 1960, lutando pela terra que adotaram como, uma especie de mãe reconhecida por cuidados de poucos. Apenas uma das Marias mora no Rio de Janeiro, mas fincou raízes em Itabira e aparece sempre para engrandecimento deste e de outros trabalhos, representando uma assessora inigualável, com as suas grandes obras científicas. Cito este nome: Maria Cecília de Souza Minayo. As outras duas continuam na terra escolhida, amada incondicionalmente: Maria das Graças Souza e Silva e Maria do Rosário Guimarães de Souza.
 
Do Cauê ao Instituto Agronômico, deixando escapar a CSN, passando pelas estradas de ferro e vendo o aeroporto desaparecer no silêncio da falta de compromisso com a comunidade; lembrando João Camilo de Oliveira Torres como um dos esquecidos — existem outros, é claro! — e mencionando o Valeriodoce Esporte Clube, instituição agonizante desde o advento da privatização da CVRD, quando foi dado à partilha com o justo epíteto de “presente de grego”, ao lado de outros donativos que não se administram, cchegamos ao exemplo das Três Marias, vindas de uma família piracicabense que ofereceu oito delas, também Marias, ao mundo, para dizer que é hora de acordar.
 
CONCLUSÃO
 
Não se admite, na mínima hipótese que, ao invés de Itabira reagir, mesmo agora depois de 76 anos de parcerias ainda insatisfatórias, as Três Marias fiquem de fora. É hora de se conscientizar que em qualquer comissão, grupo, equipe de estudos ou trabalhos elas estejam no meio como eminentes consultoras, ou assessoras, pois é verdade que pegaram peças itabiranas ligadas aos principais problemas da cidade e as colocaram como atores deste teatro que começou com o Cauê e cujo desenrolar da história ainda acontece. 
 
As lembranças, pois, de perdas irreparáveis, ou ainda recuperáveis, foi proposital, oportuna, porque não há palavras para dizer que as citadas Marias tenham não apenas desenvolvido projetos de pesquisa, mas participado ativamente como educadoras, professoras, diretoras, monitoras, voluntárias. Apenas para lembrar um registro: uma delas, Maria do Rosário, conhecida como Zara, prestou relevantes serviços à primeira entidade filantrópica itabirana, a Associação de Proteção à Infância de Itabira (APMI) durante 35 anos pelo método pouco conhecido pelo capitalismo e sequer socialismo. No silêncio da humildade e do saber sem exposição, sem imprensa e sem marketing, nem foram percebidas por aqueles que ano a ano apresentam e votam projetos de cidadania honorária. Mas não se abalam e continuam suas trajetórias. São tocadas a idealismo, puro e simple, palpável, tangível.
 
Fecho aqui o longo parênteses do Capítulo 4º para voltar ao Documentário passo a passo.
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
GONÇALVES, Fernando José. Autobiografia: A vida que Deus me deu. Belo Horizonte: Editora Independente, 2002, 136 p.
 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Camilo_de_Oliveira_Torres (Acesso em 22/07/2018).
 
https://www.escavador.com/sobre/1166504/maria-cecilia-de-souza-minayo (Acesso em 23/07/2018).
 
Itabira e Centro-Leste em Revista, edição número 9, setembro/1993.
 
Revista DeFato, Edições publicadas de 1993 a 2010. Itabira, MG.
 
MINAYO, Maria Cecília  de Souza. Os homens de ferro: estudo sobre trabalhadores da Vale do Rio Doce em Itabira. Rio de Janeiro: Dois Pontos, 1986, 244 p.
 
MINAYO, Maria Cecília  de Souza.  De ferro e flexíveis. Rio de Janeiro: Garamond,  2004, 460 p.
 
OLIVEIRA, Cecília Maria Viana Camilo de. Itabira: Desenvolvimento e Dependência. Itabira: Gráfica Dom Bosco, 1992, 72 p.
 
SILVA, Maria das Graças Souza  e.  A Terceira Itabira. São Paulo: Editora Hucitec, 2004, 256 p.
 
SOUZA, Maria do Rosário Guimarães de. Da Paciência à resistência: conflitos entre atores sociais, espaço urbano e espaço de mineração. São Paulo: Aderaldo & Rothschild Editores, 2007, 176 p.
 
VAZ, Alisson Mascarenhas. Israel, uma vida para a história. Rio de Janeiro: Gráfica Círculo, 1996, 418 p.)
 
FOTOS: Família Souza/ Silva/Minayo e Arquivo
 
José Sana
 
Em 26/07/2018
 
NOTAS
 
1. Pesquisadores que também estão contibuindo com estudos sobre Itabira e Vale até o momento, além dos citados: José Carlos Fernandes de Lima, Denes Martins da Costa Lott, Jorge Florentinho Botelho, Cecília Maria Viana Camilo de Oliveira, Ana Gabriela Chaves Ferreira, João César de Freitas Pinheiro, Clóvis Alvim, Sebastião Carlos de Olieira Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Marconi Ferreira e outros.
 
2. O levantamento continua. Aceitam-se sugestões

 

 

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