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Boa tarde - Itabira, domingo, 15 de setembro de 2019   NOTÍCIA SECA CONTATO

DOCUMENTÁRIO  
CAPÍTULO 3.º - PRIMEIRAS REFLEXÕES
Mutações econômicas e sociais na história itabirana 17/07/2018

 
Estou inaugurando um novo modelo de narrar a história? Não, respondo prontamente. Existe uma diferença no registro deste DOCUMENTÁRIO em confrontação com otro trabalho similar? Sim, eis a minha réplica, ou tréplica. O que muda é o seguinte: a história, iniciada no advento da descoberta do Cauê, que atraiu a cobiça do mundo industrial para Itabira, não termina no anúncio da Vale de que está indo embora do Sistema Sul. Neste momento, estamos no princípio de tudo. Isto é o que precisa ser dito e entendido por quem deseja continuar acompanhando o nosso raciocínio e, consequentemente, seja por este ou outro caminho, Itabira se torne verdadeiramente recompensada, ou alvo de justiça.
 
Vamos incicar abordando  tópicos nos quais Maria das Graças Souza e Silva denomina Primeira  e Segunda Itabira em sua obra  reconhecida “A Terceira Itabira” (2004). “Nessa primeira fase de exploração, a economia do povoado quase não muda em razão da pequena quantidade de ouro de aluvião encontrada nos seus córregos. No final do século XVIII, ocorre a segunda fase da exploração do ouro.” (SILVA, 2004). Depois vem outra etapa, assim sintetizada por SOUZA (2004): “Esse segundo ciclo do ouro em Itabira estende-se até meados do século XIX, quando também se explora o ferro utilizado nas forjas para o fabrico de objetos de uso doméstico ou de outros empregados na lavoura e pecuária.”
 
No meio de toda essa controvérsia econômica, surge o nome de um cidadão, Domingos Martins Guerra, que foi o idealizador da Escola Agrícola Vale do Piracicaba, seu diretor e até professor, segundo Jorge Florentino Botelho em artigo de mestrado apresentado ao Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG), em 2009, sob o título “A formação do trabalhador do campo em Minas Gerais: o Instituto Agronômico de Itabira (1880-1898)”. Domingos Martins Guerra é natural de Caeté, Minas Gerais, nascido em 23 de julho de 1826. A professora Maria José Pandolfi desenvolveu trabalho no período 2005-2008, sob o título "Desmistificando a História de Itabira". Dele extrai-se a seguinte informação: "1880 – A Câmara assina terno de compromisso com o Dr. Domingos Martins Guerra, proprietário da Fábrica de Tecidos da Pedreira, para instalação da Escola Agrícola de Itabira, mais tarde transformada em Instituto Agronômico, conforme documento de 1897, adquirido no Arquivo Publico Mineiro."
 
“A proposta inicial de desenvolvimento de um ensino teórico não foi efetivada, tendo sido ministrado, na verdade, um ensino prático. Por isso, retomou-se a discussão sobre a possibilidade de se estender o ensino oferecido, buscando assim investir no projeto que privilegiasse tanto o ensino teórico quanto prático. Foi por esse motivo que, em agosto de 1892, doze anos depois, ocorreu a transformação da Escola Agrícola Vale do Piracicaba em Instituto Agronômico de Itabira.” (BOTELHO, 2009, p.78).
Complementando as suas palavras, “a partir de então, o objetivo do Instituto passou a ser o de formar engenheiros agronômicos e técnicos em práticas agrícolas.” Era presidente da Província de Minas Gerais o cidadão de Santa Bárbara, MG, Affonso Augusto Moreira Penna. O Instituto Agronômico, que foi instalado na Fazenda Palestina, na localidade denominada Santana tinha uma finalidade determinada. “Seu objetivo não visava elevar a produção na Fazenda Palestina, mas sim divulgar o ensino prático e reverter o quadro econômico de Itabira e região.” (BOTELHO, 2009, p. 109). Há de se registrar o seu problema crucial: falta de alunos, demonstrada por Botelho em seu trabalho e a razão de tudo: “A redução do número de alunos relacionava-se ainda às questões financeiras, que sempre permearam a vida da Escola Agrícola/Instituto Agronômico.” (BOTELHO, 2009, p. 99).
 
Segundo Jorge Florentino Botelho, em suas demonstrações de correspondências trocadas entre diretores da escola e o governo da província, faltaram alunos suficientes para que a escola se mantivesse de pé. “O Instituto Agronômico teve vida curta: apenas quatro anos de funcionamento. Após a primeira e única formatura, se formaram apenas dois engenheiros, o governo dispensou os funcionários e encerrou definitivamente o ensino teórico de agricultura em Itabira. O governo colocou a Fazenda Palestina à disposição da Câmara de Itabira, enquanto apresentasse produção. Assim a exploração da sericultura permanece, sendo posteriormente extinta (BOTELHO, 2009, p. 108/109).
 
De acordo com Cecília Maria Viana Camilo de Oliveira, com a decadência das minas a agricultura entrou em declínio. “A Escola Agrícola (Instituto Agronômico) foi extinta  pelo governo provincial, quando produzia seus primeiros frutos” (OLIVEIRA, p.11).
 
Voltando ao tema mineração e siderurgia, Maria Cecília de Souza Minayo, em “De ferro e flexíveis” (2004, p.46) escreveu: “No século XIX, o município passa por períodos de certa euforia econômica, recuperando-se da depressão do ciclo do ouro através da instalação de altos fornos para fabricação de ferro e de artefatos de ferro, chegando a surpreender viajantes estrageiros à época, pelo grau de aperfeiçoamento que chegam essas pequenas indústrias assim como pelo número das existentes.” (Minayo, 2004).
“Em 1881, registrou-se a presença de 14 forjas de ferro no município de Itabira. No final do século XIX, com a gradativa transição para o trabalho livre assalariado (abolição da escravatura), a indústria do ferro começou a apresentar sinais de decadência” (OLIVEIRA, 1992, p.12).
 
“De acordo com a historiadora FERREIRA, D. 1999), ‘no final do século XIX são instaladas na cidade duas indústrias têxteis que foram importantes na economia do município, mas não chegaram a ter grande expressão como a siderurgia e a extração do ouro”’ (FERREIRA, D, 1999, apud LIMA, 2002, p.12). Na década de 1950, registra-se prosseguimento à decadência das indústrias de tecidos de Itabira, motivada por novas leis trabalhistas, concorrência do mercado e dificuldades aceleradas durante o transcurso das Primeira (1914-1918) e Segunda Guerras Mundiais (1939-1945), de acordo com vários historiadores. “A falta de capital e conhecimento técnico industrial levaram as fábricas Gabiroba e Pedreira a se retraírem perante a concorrência dos novos polos industriais.”  (OLIVEIRA, 1991, p.17).
 
“De 1705 a 1942 temos os interesses econômicos e políticos imperiais circunscrevendo, inventariando, planejando, determinando e executando projetos para Itabira.” (FERREIRA, 2015, p.65).”
 
Há algo que imaginar do que se vê. Vamos acompanhar o que diz José Carlos Fernandes de Lima em sua dissertação de mestrado “A sociedade divil de Itabira na década de 90 e a democratização do poder local: avanços e dificuldades”. O que se propõe agora, neste Documentário é pesquisar no âmago desta sociedade se há um poder de reação. Mesmo sendo sua pesquisa de 1990, o que se busca no passado, projetando-se para o presente e o futuro, é uma reflexão concernente ao que se desejas como trabalho e êxito.
 
Diz o autor: “Na paisagem local (Itabira), os traços das mudanças são perceptíveis. O imbricamento da mina com a cidade recortada pelas jazidas manifesta-se através dos possantes equipamentos industriais, à vista de qualquer observador. As partículas de poeira ferruginosa suspensas no ar, grudadas às árvores e às paredes das casas; as detonações cotidianas que progressivamente derrubam as montanhas de minério; paredes de moradias rachadas em função de dinamitagem; deslocamento de bairros inteiros para dar lugar ao avanço da exploração mineral e os uniformes beges dos funcionários da CVRD evidenciam uma Itabira marcada pelas ações da empresa.” (LIMA, 2002, p.16).
 
Mais à frente, o trabalho do autor será indispensável para explicar como sempre foi a reação do itabirano diante não só das dificuldades enfrentadas com o ataque das consequências da mineração, como de ter sempre uma perspectiva incomodando a cabeça, ou do cada vez mais assustador fantasma da exaustão. Como exemplo, temos bem perto, o então distrito e hoje cidade de Catas Altas, a 80 quilômetros de Itabira.
 
“Durante o ciclo da mineração, Catas Altas foi um dos mais ricos e populosos arraiais de Minas Gerais. Com o esgotamento das minas, o arraial ficou praticamente abandonado. Em 1868, chega a Catas Altas o Monsenhor Manuel Mendes Pereira de Vasconcelos para ser o vigário do arraial. Logo percebe o estado lastimável em que se encontrava o lugar, além do abatimento moral estampado nos rostos dos poucos moradores que ainda não haviam emigrado. O padre nota ainda a ausência de qualquer forma de cultura de subsistência. Milho, arroz, feijão, toucinho, tudo é provido pelos tropeiros” (Prefeitura de Catas Altas, 2003).
 
Continua a narração: “O vigário chega à conclusão de que, além da escassez do ouro, as causas de tamanha decadência foram as ações assistencialistas que criaram uma perniciosa acomodação ao distribuir tudo que a população necessitava com hora e local marcado.
 
Monsenhor Mendes acreditava que, para provocar mudanças drásticas, era necessário educar as pessoas, ensinar a cultura de subsistência e desenvolver o conceito da vida em comunidade. Depois de encontrar uma muda de videira americana na casa de um amigo, Monsenhor Mendes descobre ser possível produzir até mesmo o vinho que necessita nas missas ao encontrar. Então, ele passa a ensinar o povo como plantar as videiras, as épocas das podas, das colheitas, como esmagar as uvas, o período de fermentação, o armazenamento adequado para não acontecer nenhuma alteração”. (continua a narrativa).
 
“E assim, o vigário conseguiu que a produção do vinho de Catas Altas aumentasse cada vez mais, sempre com melhor qualidade. Em 1884, Monsenhor Mendes publicou um manuscrito com “as noções úteis ao fabricante de vinho”, contendo informações sobre o feitio da bebida, as diferenças dos vários processos empregados e a prevenção junto ao fabricante contra práticas que podem estragar o vinho. O padre acaba ganhando a mídia nacional e faz Minas Gerais sair do anonimato na produção de vinhos. O vinho de Catas Altas era comparado por autoridades no assunto com o Porto e o Xerez” (Idem)..
 
O que se propõe mostrar no momento: um líder religioso teria mudado a cultura e a história de uma cidade. Segundo o padre-historiador José Evangelista de Souza, em seu livro, lançado em 1998, “Catas Altas do Mato Dentro: sua história e sua gente”, “Monsenhor Mendes que foi, durante  dez anos (1868 a 1878), vigário coadjutor do Padre Francisco Xavier Augusto de França, Vigário Colado da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição e, em seguida, com a morte do titular, tornou-se Vigário Colado. Padre Evangelista, que foi o responsável pela transcrição dos textos do Tomo II para a ortografia atual, narra também, nas duas obras, a preocupação de Padrim Vigário, como Monsenhor Mendes era chamado, em combater o assistencialismo aos pobres e de, pelo contrário, ensinar a eles o ofício da agricultura — cultivar a terra, plantar, proteger a plantação e colher.” (SOUZA, J., 1998, p. 135).
 
 
ANÁLISE
 
 
As oscilações históricas mostram de certa forma que o momento de exaustão de minas não é comum, ou se apresenta como instantes difíceis, mas são plenamente superáveis. O que vai se evidenciar, com certeza, será a participação da comunidade no processo de mudança, daí o recorrer à dissertação do professor José Carlos Fernandes de Lima, que avalia a capacidade itabirana e os caminhos dela diante de dificuldades desafiadoras.
 
Também a lição deixada por Monsenhor Mendes em Catas Altas, extensivamente a Santa Bárbara, a 14 quilômetros de distância, que também vivenciou problema idêntico, mesmo na distância do tempo e geográfica em relação a Itabira, serve para mostrar que a sociedade itabirana precisa se mexer, agir, tomar a iniciativa e ser também sujeito ativo das ações e não como até o momento procedeu.
 
 
CONCLUSÃO 
 
 
As considerações apresentadas nos parágrafos deste capítulo levam a conclusões diversas diante da alternância econômica e política de Itabira do Mato Dentro, primeiro nome; de Itabira, segunda denominação; de Presidente Vargas, nome imposto pela ditadura Vargas (1937-1945) e novamente a volta desejada a Itabira. A procura de entendimento acerca do que representaram tantas mudanças, qual seria a capacidade de reação do povo que nesta cidade se comportou em cada etapa das crises registradas — é o que se tencionou mostrar. Não importa o que se viveu no passado ou mesmo se vive no presente. O que parece claro demais é que, para se enfrentar os desafios do futuro, serão necessários novos postura, trabalho, estratégias e um diferente comportamento, nada tímido, não de reivindicação e nem de exigência, mas de seriedade no trato com o delicado tema.
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
 
FERREIRA, Ana Gabriela Chaves. Mineração em serra tanto bate até que seca - A presença da Vale em Itabira para além do desensolvimento dos conflitos ambientais.  Belo Horizonte: Monografia, 2015, 134 p.
 
BOTELHO, Jorge Florentino. A formação do trabalhador do campo em Minas Gerais: o Instituto Agronômico de Itabira (1880-1898). Belo Horizonte: Dissertação de Mestrado, 2009, 118 p.
 
FERREIRA, Diva. Memórias, Itabira-Minas. Belo Horizonte: O Lutador, 1999.  206 p.
 
LIMA, José Carlos Fernandes de. A sociedade civil de Itabira na década de 90 e a democratização do poder local: avanços e dificuldades. Belo Horizonte: Dissertação de Mestrado, 2002, 124 p.
 
MINAYO, Maria Cecília  de Souza. Os homens de ferro: estudo sobre trabalhadores da Vale do Rio Doce em Itabira. Rio de Janeiro: Dois Pontos, 1986, 244 p.
 
OLIVEIRA, Cecília Maria Viana Camilo de. Itabira: Desenvolvimento e Dependência. Itabira: Gráfica Dom Bosco, 1992, 72 p.
 
PANDOLFI, Maria José. Desmistificando a História de Itabira. Trabalho funcional no Museu, 2005-2008.
 
PREFEITURA de Catas Altas, 2003. http://catasaltas.mg.gov.br/historia/ link acesso em 16/07/2018,
 
SILVA, Maria das Graças Souza e.  A Terceira Itabira. São Paulo: Editora Hucitec, 2004, 256 p.
 
SOUZA, José Evangelista de. Catas Altas do Mato Dentro: sua história e sua gente. Belo Horizonte: Editora Vozes, 1998, 298 p.
 
SOUZA, Maria do Rosário Guimarães de. Da Paciência à resistência: conflitos entre atores sociais, espaço urbano e espaço de mineração. São Paulo: Aderaldo & Rothschild Editores, 2007, 176 p.
 
 
 
FOTOS: 1, Itabira, década de 1930 - Braz Martins da Costa
               2. Itabira: antiga catedral e Pico do Cauê - Foto Minas
               3. Antiga praça e igreja do Campestre - CVRD
               4; Calçamento rua dos Operários (Itabira) - Arquivo
               5. Diretoria e professores do Instituto Agronômico de Itabira (Maria José Pandolfi, do Arquivo Público Mineiro)
José Sana

 

 

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