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Boa tarde - Itabira, domingo, 15 de setembro de 2019   NOTÍCIA SECA CONTATO

DOCUMENTÁRIO  
ITABIRA-VALE/VALE-ITABIRA (CAPÍTULO 1)
O Cauê 02/07/2018

 

Nossas pesquisas vão encontrar  a origem das montanhas rochosas em talvez bilhões de anos decorridos e nos levarem a uma só causa que, por si só, informa onde e porque tudo começou. Seu nome, registrado internacionalmente e admirado por todos, chama-se até os dias atuais, mesmo extinto ou semi-reconstituído, Pico do Cauê, palavra dialetal africana que significa irmãos. Para Maria do Rosário Guimarães de Souza (2007, apud CVRD. Mineração Itabira-Timbopeba, 1988, p.8), “A estrutura geológica do solo, datada das eras arqueozoica e proterozoica,  deu  origem às imensas jazidas de minério de ferro, exploradas industrialmente há mais de sessenta anos pela CVRD”.Recheado de hematita, minério de ferro do mais alto teor, foi lembrado no XI Congresso Geológico Internacional, realizado em Estocolmo (Suécia), em 1910. No evento, “relatório, elaborado pelo Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil, revelou que no centro de Minas Gerais estavam localizadas as maiores reservas mundiais de minério de ferro” (Cecília Camilo, 1992).

A origem das volumosas e das pequenas jazidas de minérios, os mais variados, em todos os continentes, vem sendo estudada há muito e sobre ela há grande volume de dados, mas com distintas interpretações. De acordo com o conhecimento atual  de geologia, os detalhes da origem dos depósitos ainda são incertos. Os principais mecanismos formadores do complexo de diques e brechas tectônicas são considerados consequência de seguidos ‘fraturamentos’ hidráulicos, com falha tectônica, corrosão química e colapso gravitacional

http://www.venusterra.com.br/aorigemdasjazidasdeminerios.html.

Dá para perceber, de início que o tema é complexo e, portanto, neste caso, não faria parte desta pesquisa. Anos-luz ou bilhões de anos passados fogem às nossas percepções. "A estrutura geológica do solo, datada das eras arqueozoica e proterozoica, deu origem às imensas jazidas de minério de alto teor ferrífero, exploradas há mais de sessenta anos pela CVRD" (SOUZA, 2007, p. 44). A simples observação nos permite imaginar a longevidade da famosa montanha itabirana.

“(...) quando os bandeirantes chegaram ao Pico do Cauê, encontraram grande incidência de ouro. Ali ao sopé desse monte, se instalaram e iniciaram a exploração mineral. Transferiram-se mais tarde para as margens do Ribeirão da Penha, onde passaram a explorar ouro de aluvião e formaram, nesse local, um pequeno povoado. A abundância do ouro atraiu outras pessoas para a região”, de acordo com Maria do Rosário Guimarães de Souza ( 2007, p.35).

Retornando ao século XIX, vamos encontrar o ex-vereador Antônio Alves de Araújo, Tutu Caramujo, presidente da Câmara Municipal (mesmo cargo de prefeito), no período de 1869 a 1872,  “Para muitos, Tutu Caramujo foi um pessimista; para outros, um visionário, por enxergar a imobilidade do itabirano frente a tão grande riqueza,” afirma seu sobrinho-bisneto Marconi Ferreira, escritor, poeta e estudioso de história/cultura, autor de "Viagem na História de Itabira com o  Menino da Mina", um livro de poemas (2013).

Na época, Tutu Caramujo não perdoava. Quase cem anos depois, Carlos Drummond de Andrade, captando seus sentimentos e o analisando sob o olhar da mineração de ferro, criou o poema  “Itabira”, fragmento de Lanterna Mágica:

Cada um de nós tem seu

 Pedaço no Pico do Cauê.

Na cidade toda de ferro.

As ferraduras batem como sinos.

Os meninos seguem para a escola.

Os homens olham para o chão.

Os ingleses compram a mina.

Só, na porta da venda, Tutu Caramujo

cisma na derrota incomparável

(Drummond, Alguma Poesia, 1930).

 

A montanha, que estava lá, voltou a ser assunto de interesse mundial  no século XX. E se mostra como o início de tudo. “O ouro que retiram da terra só serve à prosperidade de estranhos, e seus descendentes ficam pobres” (Saint-Hilaire, 2000, p. 137 apud Maria das Graças Souza e Silva, em “A Terceira Itabira”, 2004, p. 40-41).

Antes de seu aproveitamento em larga escala, a abundância e riqueza do ferro despertaram a iniciativa de empresários itabiranos, que resolveram utilizá-lo na pequena indústria das forjas. “Em 1881, registrou-se  a presença de 14 forjas de ferro no município de Itabira” (Cecília Camilo, 1992). Também, a economia itabirana, com o foco voltado para a diversificação, viu inaugurar e crescer duas fábricas de tecidos: a Cia. Fabril da Pedreira, na localidade do mesmo nome, área hoje inundada por uma grande lagoa construída pela CVRD; e a Cia. União Itabirana, no atual bairro Gabiroba, que era, na época, considerada, zona rural. Informa Cecília Maria Viana Camilo de Oliveira (1992): “O município de Itabira possuía 2 das 29 fábricas distribuídas na província mineira”.

ANÁLISE

O tema continuou sendo o Cauê, que desassossegou até o interesse de empresários de outros países, e despertou o Brasil. Também alguns itabiranos, ansiosos pelo futuro, ficaram de olho nas manobras do governo brasileiro, que  passou a considerar como importante a exportação do minério de ferro, mas deixava claro que teria que passar essa matéria-prima pelo processo de transformação, via siderurgia.

Expõe-se  claramente, o que será reforçado, ou reafirmado, nos capítulos seguintes, a consciência da luta pela industrialização, num sistema tipicamente nacionalista. “Consciente que os grupos estrangeiros só se interessavam pela exploração e exportação do minério de ferro sem ter a intenção de implantar uma siderurgia no país, os políticos mineiros estabeleceram taxas de exportação sobre o minério a ser extraído das jazidas existentes em seu território” (Cecília Camilo, 1992).

É preciso que se entenda, então, que a causa chamada Cauê, feito exclusivamente  pela  natureza, por meio de fenômenos já descritos, escolheu um local para mostrar a sua beleza, riqueza e expectativa de dias sempre melhores: Itabira do Mato Dentro, ou Itabira, simplesmente. província de Minas Gerais, Brasil.

CONCLUSÃO

Uma estatal brasileira começava a existir, mesmo imaginariamente, na cabeça dos governos de Minas e do Brasil. Outras empresas, particulares ou não, a antecederam e driblaram a lógica por um bom tempo, mas agora, eis que deve ser considerado o seguinte: estavam preparando um verdadeiro “golpe” contra os desígnios naturais, que presenciaram Itabira com aquele pico rico e imenso.

Surge aí estampada a verdade: a soma do Cauê, sua fama, sua riqueza, com o local — Itabira: eis o germe inicial da Companhia Vale do Rio Doce que estava se tornando cada vez mais real.

Certo ficou que a futura empresa, passando por outras na sua antecedência, ou gestação de quase um século, tinha já responsabilidades e compromissos com a área influenciada pelo Cauê. A ideia era, contudo e somente,  explorar,  vender e entregar seja onde for, até mesmo do outro lado do planeta, o produto bruto extraído do solo itabirano.

Não foi tão perceptível na época para se compreender a artimanha anti-natural que se escancarava aos olhos de nossos antepassados. Só a história nos permite agora e, contundentemente, desvendar e denunciar esta primeira agressão contra Itabira, que veremos a seguir, começando por levar a siderurgia, que seria  incontestavelmente itabirana, para outro estado que nada tinha a ver com a causa de tudo, o Cauê e sua riqueza. A primeira injustiça tinha e tem um nome: Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), até hoje prosperando em Volta Redonda (RJ). Veremos a trama a seguir.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma poesia. Belo Horizonte: Cia das Letras, 1930. 120 p.

FERREIRA, Marconi. Viagem na História de Itabira com o Menino da Mina, Editora Tempoética, 2013, 120 p.

OLIVEIRA, Cecília Maria Viana Camilo de. Itabira: Desenvolvimento e Dependência. Itabira: Gráfica Dom Bosco, 1992, 72 p.

ORIGEM GEOLÓGICA  DAS MONTANHAS

 http://www.venusterra.com.br/aorigemdasjazidasdeminerios.html) – Site consultado em 01/07/2018.

SAINT-HILAIRE, A. “Itabira do Maro Dentro, jornada de Itabira a Vila do Príncipe”. In: Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Porto Alegre: Companhia Editora Nacional, 1938, 246 p.

SILVA, Maria das Graças Souza e.  A Terceira Itabira. São Paulo: Editora Hucitec, 2004, 256 p.

SOUZA, Maria do Rosário Guimarães de. Da Paciência à resistência: conflitos entre atores sociais, espaço urbano e espaço de mineração. São Paulo: Aderaldo & Rothschild Editores, 2007, 176 p.

FOTOS: reprodução Jornal da Vale (1974) e Brás Martins da Costa

José Sana

02/07/2018

 


 

 

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