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Boa tarde - Itabira, domingo, 15 de setembro de 2019   NOTÍCIA SECA CONTATO

MEIO AMBIENTE  
PAPA DO MEIO AMBIENTE DISSE QUE TUDO ESTÁ ERRADO
Entrevista de duas décadas denuncia atrasos 22/07/2018

Impressionante o marco de datas. Em 11 de janeiro de 2000, depois de esperar por quase seis meses, estava frente a frente com um dos maiores ambientalistas de todos os tempos. Seu nome, Sérgio Mário Regina, engenheiro agrônomo, natural de Vargina, MG, que tinha escritório e residência em Belo Horizonte.

Graças á interferência de outro ambientalista respeitado, de nossa região, Cláudio Bueno Guerra, tive acesso a essa figura simples, mas cercado pelo mundo que o reconhecia como importante por saber das coisas. Sérgio Regina, com currículo que não cabe em dezenas de páginas, reconhecido em vários países, como Itália, México, Estados Unidos, Portugal, Espanha, França, Suécia, Alemanha, Canadá, Argentina, sem citar o Brasil, estava diante de mim, que tive mais de uma hora para fazer perguntas e ouvi-lo.

O que é impressionante, antes de ir aos detalhes da entrevista, foi que, exatamente nove anos depois, em 11 de janeiro de 2011, deparo nos jornais com um aviso da imprensa de Varginha, anunciando a sua morte. A supra inteligente do ser indispensável ao mundo viveu apenas 76 anos, mas deixou um riqueza imensa de aulas dadas.

O que pude extrair dele está nesta entrevista que transcrevo a seguir, que publicamos em fevereiro de 2000:

José SanaA enchente oocorrida no Sul de Minas, sua região de nascimento, foi a maior da história?

Sérgio Regina —  Sim, a maior. Em 1986, tivemos outra. Desde então não tivemos chuvas com a mesma intensidade.

J.S.Como o senhor classifica, em grau de importância e influência, os fatores que ocasionaram o drama ocorrido?

S.R. —  As causas estão no meio rural e no meio urbano. No rural, a causa mais forte é o desmatamento dos topos, das vistas altas que fazem a água despencar. Outro desmatamento criminoso é o das nascentes, das grotas. Precisamos cercar essas águas até que elas cheguem aos rios. Mais um problema são as estradas vicinais. A preservação é feita, geralmente, de maneira errada e estão passando patrola sem tomar os devidos cuidados. Cada patrolamento tira em média dez centímetros de profundidade da estrada. Em dez anos, uma estrada vicinal afunda dez metros, fator que causa erosão e enxurradas.

J.S.Mais outra causa no meio rural?.

S.R. —  Na agricultura. Existem lugares certos para se plantar milho, por exemplo, o que chamamos de “ocupação racional” de topo-sequência”, ou seja, a sequência da topografia. Partindo do alto do morro, deve-se ter matas, depois culturas permanentes ou o próprio reflorestamento, em seguida pastagens, depois culturas anuais, depois as matas ciliares e, um pouco abaixo, a água.

J.S.Parece-nos procedimentos ignorados por muita gente e até mesmo complicados. Como o agricultor vai saber disso?.

S.R. —  A Emater está aí para instruir e sempre quis imprimir um ritmo normal de orientações. Eu trabalhei lá e sei do programa de micro-bacias e sub-bacias hidrográficas há 18 anos. Nós ofertamos o trabalho aos prefeitos, mas, incrivelmente, só 16 dos 753 municípios mineiros deram o aceite ao programa. Hoje são mais de 900 prefeituras e apenas 26 mantêm parceria com o órgão do Estado.

J.S.Para a área rural são apenas essas as recomendações?.

S.R. —Sim, esse é o elenco de todas as práticas conservacionistas nas culturas de que falei, conforme cada região. Não podemos recomendar terraço para todas as obras de Minas. Terraço de base larga, terraço de base estreita, cultura em baixa, capinas alteradas, enfim, existem cerca de 80 práticas conservacionistas à disposição do agricultor. Um fato extraordinário é o “coveamento” de bananas, 50 x 50 x 50 centímetros, montanhas abaixo,, solos declivosos. Só esse “coveamento”  segura 85% da chuva que cai. No Sul de Minas, na Mantiqueira, o “coveamento”  de banana poderia ser uma solução.

J.S.E as causas provocadas na área urbana?.

S.R. — A primeira causa são os loteamentos. Os prefeitos são muito bonzinhos de coração e essa bondade é mais demagógica que espiritual, permitindo que os pobres, os de classe média e os próprios ricos façam loteamentos em regiões impróprias ou muito declivosas. do alto da montanha partem para desaterros criminosos. Isso quando o loteamento não cai nas mãos de topógrafos incompetentes, que só conhecem as figuras lusitanas. Topógrafo no Brasil, geralmente só conhece o retângulo e o quadrado, mal o trapézio para terminar um canto de rua. Os loteamentos deveriam ser feitos em curvas de nível, avenidas transversais. Enxurradas representam atestado de incompetência, tanto no meio rural como no meio urbano, para prefeitos, agricultores e quem quer que seja o responsável.

J.S.Considerando que a maioria das cidades está pronta, como se evitar o problema, então?.

S.R. — Há, sim, condições de se pegar as ruas transversais e mudar o aclive, invertê-lo do leito. E até mesmo os bueiros. A maioria das prefeituras não sabe sequer instalar um bueiro. Deve-se fixar a metade, deixando-se a outra parte em sentido vertical. Com a metade vertical, nunca há entupimento, colocando-se a grade no sentido favorável ao escoamento das águas. Tenho esse planejamento todo ilustrado e que tem sido assunto de muitas palestras para prefeitos nos últimos dez anos. Existe uma expressão traduzida do latim que significa “áreas não edificantes”. O Código Florestal deve ser repeitado também dentro das cidades.

 

J.S.Mais fatores que causam enchentes no meio urbano?.

S.R. — Excesso de impermeabilização, cimento, sepultamento de córregos. Nossas cidades têm esses problemas de enchentes. Os quintais nunca poderiam ser cimentados, os lotes deveriam ter pelo menos 30% de vegetação para pomar, área verde, horta, gramados, jardins. Para a urbanização, menos asfalto e mais calçamento com blocos.

J.S.E os esgotos?.

S.R. — São uma calamidade. Acho que Minas Gerais só tem 13 municípios com tratamento total de esgoto e com obras dessa natureza em andamento. São oferecidas várias modalidades de tratamento de esgoto para as prefeituras, mas temos inúmeros problemas que impedem a concretização das metas. Um deles é o fator eleitoral: o prefeito pensa que obra debaixo da terra não dá voto, porque acredita sempre na ignorância do eleitor. Outro problema é a alternância do poder, fator natural da democracia, mas que tem prejudicado as obras de tratamento de esgoto em nosso Estado. Os prefeitos quase sempre não concluem as obras deixadas em andamento pelos antecessores.

J.S.Antigamente  chovia mais que nos tempos atuais. Por que hoje as chuvas são mais danosas?.

S.R. — A primeira causa veio da colonização, totalmente infeliz. Os portugueses que aqui chegaram não vieram para ficar, mas para extrair a riqueza e, pronto, sumir. A primeira causa se resume na obediência da extensão das margens dos rios, que deveriam ter 100 metros de cada margem preservados. As nossas leis ainda não são

respeitadas, estabelecem para o perímetro urbano 30 metros de margem. As chuvas de antigamente encontraram  o solo pronto para recebê-las e, hoje, isso não ocorre porque o homem, com a sua falta de educação, danificou tudo e não procede como deveria. As práticas conservacionistas não são apenas feitas para se evitar enchentes. É muito mais nobre e lucrativo colher a chuva que cai. As chuvas que caem no meio urbano e na área rural precisam ser colhidas. A Epamig e a Emater estão lançando programas que ensinam como colher a chuva para produzir água. Eu acordo e durmo pensando neste projeto. Queria um slogan para inserir num artigo meu e, assim, motivar o agricultor e acabei chegando nisto: “Colha chuva para produzir água”. Apesar do drama de famílias desabrigadas, mortes, aflições, tudo o que vimos acontecer no Sul de Minas, duro é a chuva não cair, a escassez é infinitamente pior que a abundância.

J.S.Seus conselhos para o Sul de Minas são também para outras regiões?

S.R. — Há uma série de medidas a serem tomadas, principalmente evitar os erros cometidos  no passado.

J.S.A culpa pelos estragos sempre é atribuída à quantidade de chuva que cai. O senhor tem ouvido isso?.

S.R. — Sim. Estou cansado disso. Recusei-me a ir a um programa de televisão para não brigar com os prefeitos, porque falo mesmo a verdade. Esté em jornais e aqui estou dando mais uma entrevista. Repito sempre: os prefeitos em sua maioria são jacus, o índice de escolaridade divulgado para todo o Brasil é alarmante. Deveria ser exigido de cada prefeito ou vereador no mínimo o segundo grau. Gostei do procedimento de um juiz de Direito do Sul de Minas  que nas eleições passadas exigiu provas para os candidatos.

J.S. —Voltando ás enchentes, elas podem voltar a acontecer?.

S.R. — Sim, e com um intervalo cada vez menor pelos motivos já expostos.

J.S.E a questão ambiental de modo geral no Brasil, como o ser a vê?.

S.R. — Não há como medir o tamanho do atraso. Minha visão é que muitas empresas, principalmente no Vale do Aço, praticam educação cardíaca instituindo prêmios, troféus.

José Sana (janeiro de 2000)

 


 

 

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