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Boa noite - Itabira, segunda, 09 de dezembro de 2019   NOTÍCIA SECA CONTATO

CIDADES  
REMINISCÊNCIAS DE GUANHÃES (1)
De ruas, paraquedista, doce de leite e empada de Stael 20/06/2019

 

Amigos me perguntam  por que além de escrever muito sobre Itabira e São Sebastião do Rio Preto, também incluo Guanhães no rol de minhas cidades-mito. É muito simples entender. E aqui insiro uma tentativa de explicação: a terra dos índios Guanaãns foi a minha primeira cidade de moradia, depois de sair da Vila de São Sebastião do Rio Preto que, na época, pertencia a Conceição do Mato Dentro. E lá me senti à vontade. Aos 12 anos de idade, fui bem recebido pela população como se fosse um pseudo-rei de Roma.  Já no primeiro dia de aulas no então Ginásio Estadual de Guanhães, hoje Escola Estadual Odilon Behrens, aplicaram-me inapelavelmente um apelido engraçado, “Cheiroso”, e imediatamente até as senhoras guanhanenses  chegavam às  janelas e me distinguiam, apesar de nem cheirar mal nem cheirar bem.

Guanhães tem a enigmática Rua do Pito, cujos fundos de quintais conhecia como a palma da mão por neles “roubar” laranjas, mexericas e, principalmente, jabuticabas. A cidade mantinha a cultura da  Rua do Paquetá, Cantagalo,  Areão, Bairro Vermelho e outros locais inesquecíveis nos quais protagonizamos – com meus amigos – grandes peripécias. No Pito ia ensaiar na Banda de Música do Maestro Senhor Nabuco, a pedido do conterrâneo João Rodrigues de Moura, e empunhava um portentoso bombardino si bemol. Depois do ensaio, as jabuticabas que se danavam, eram surrupiadas uma a uma em cuités arranjados não me lembro nem como nem onde nem por quem.

Lá pelos idos de 1957, Joãozinho do Sargento e eu enfiamo-nos pela região situada acima da Praça de Esportes que, seu pai, o Sargento, gerenciava, e fomos ver de perto a chegada do primeiro paraquedista na terra em que estava morando, casa do senhor Silvestre  Quintão, meu primeiro anfitrião.  Enquanto no campo de futebol, situado um pouco abaixo, uma multidão aguardava o homem vindo dos ares, localizamos o herói longe e o acompanhamos arrastando aquela imensidão de objetos que mais tarde chegariam banhados de poeira com o personagem aplaudido freneticamente.

Mais uma recordação: com o mesmo Joãozinho, grande amigo, íamos para a porta da Laticínios Virgínia para esperar o “momento da rapa”. Delícia indescritível: recebíamos as sobras do doce de leite do dia, sempre numa segunda-feira, depois de devidamente embalada a parte que chamavam de principal (e o principal era o fundo da gamela) para seus compradores. Ganhávamos em folhas de bananeira a doçura, sem custos, mesmo que fôssemos manjados naquela porta acolhedora.

E no Ginásio? Ali era uma diversão ímpar rir do português repicado e de sonorização forte do regente Seu  Fonseca. Ele entrava nas salas, uma a uma, e soltava, no timbre de voz vindo do outro lado do Atlântico, o manjado “horário para amanhã”. Antes do intervalo das aulas, mesmo com o professor  Durcelino Reis exigente no Francês, ou Heitor da Mata com a sua Matemática massacrante, ou o “vamos ao que segue” geográfico do professor Chaves, éramos interrompidos pela empadinha de Stael, ah..., inesquecível, inimitável, deliciosa empada de macarrão que expandia o aroma em todos os cantos e recantos, e no pátio do colégio.

As aulas eram inevitavelmente interrompidas pelas curvas atraentes do cheiro. Stael, assentada num lado do espaço, fazia as vendia e anotava na cachola  o nome do comprador em regime de fiado. Às vezes sem dinheiro, ia eu lá ficar devendo, Stael vendia, sim, uma vez só, e  exigia pagamento para o dia seguinte. Na data  tratada de pagar, ainda "quebrado" como de praxe, pedia a amigos, como Pedrinho, Marquinho, Aymar, Márcio, Nathan, ou o próprio Joãozinho do Sargento, eles compravam  no crédito deles, o meu estava expirado. Até hoje, sem exagero algum, sinto o cheirinho do tempero da  Stael  me tontear o olfato.

 

Tentei, anos depois, a receita dela  mas a velhinha quitandeira não cedeu, disse que morreria e levaria para São Pedro o seu segredo. E não sei se levou. Anos mais tarde, contudo, desta vez como repórter, cheguei lá na casa em que ela morava, no Pito, às 3 horas da madrugada para ver o seu neto preparar a empadinha inigualável e sair de tabuleiro no braço para a venda nos pontos marcados. Cheguei a escrever que a empada da Stael  deveria ser tombada pelo patrimônio histórico, artístico e cultural  como bem imaterial, o cheiro, e o sabor e material a massa, o recheio e  a marca sem registro no INPI. Ainda não ouviram os meus apelos.

 

José Sana

Em 20/06/2019

Fotos:

           1. Rua de Guanhães (foto recente).

           2. Vista parcial de Guanhães (foto recente).

       3. Prédio do antigo Ginásio Estadual de Guanhães, hoje E.E. Odilon Behrens (2007).

 


 

 

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